Acompanhar o pensamento dos componentes deste Farol de Limeira é uma experiência única. Porque, dentro da mais absoluta liberdade, todos constroem suas opiniões com base em suas vivências, de vida ou profissionais, e não é raro nos depararmos com algumas preciosidades. Como a que foi oferecida no programa de ontem, no retorno do arquiteto e urbanista Ronei Costa Martins Silva. Ele abordou dois assuntos igualmente sensíveis, o segundo, a questão indígena, mas sobre este voltaremos a conversar. Passemos, então, ao primeiro, relativo à restauração das obras de arte danificadas nos episódios de oito de janeiro, em especial aos quadros de Di Cavalcanti e Cândido Portinari. Segundo Ronei, embora existam possibilidades para que os mesmos retornem a forma original, ou seja, sem as perfurações que lhes foram impostas, do ponto de vista histórico os quadros deveriam permanecer como estão, danificados.

Acompanhando o raciocínio do amigo, ele emprestou como exemplo o Coliseu Romano, obra iniciada pelo imperador Vespasiano e concluída em meados do ano 80 d.C. Ou seja, durante quase dois milênios, o anfiteatro, com capacidade estimada para abrigar cerca de 60 mil pessoas, foi esculpido pelo tempo, e hoje a destruição parcial que o abate é o verdadeiro elo que nos une ao nascimento do cristianismo. Se algum mandatário italiano, em qualquer época, pretendesse reformá-lo, transformando-o em estádio de futebol por exemplo, aí, sim, estaria transformando sua história em “ruinas modernas”, vamos dizer assim. Portanto, a inédita depredação da praça dos Três Poderes, se ficar restrita apenas em livros de história, logicamente terá o seu valor resguardado, mas as “marcas”, defende Ronei, ao permaneceram pelas próximas décadas, serão o retrato mais fiel do que fizeram os criminosos.

De mais um solavanco enfrentado na consolidação de nosso ambiente democrático. Obviamente isso não se aplicaria a tudo o que foi destruído, e, em alguma medida, foi o que a ministra Rosa Weber, fez ontem, no reinício das atividades do STF. Um vídeo em preto e branco foi exibido às autoridades presentes revelando todos os estragos sofridos pelo ambiente da Corte, como uma espécie de “antes e depois”, em um claro recado da resistência dos poderes da república. Além disso, sob o mesmo raciocínio, ela determinou a criação de pequenos espaços que conterão, daqui por diante, objetos quebrados pelos agressores, como um sinal de que os bens duráveis podem ser destruídos, mas isso não se aplica aos inestimáveis preceitos que, bem ou mal, fazem funcionar a democracia brasileira.

Ronei, mais uma vez, arrasou, um termo que bem resume seu brilhante raciocínio.