Se tudo correr como o planejado, o que não será fácil, a partir do segundo semestre pretendo concluir o primeiro volume de um ensaio sobre comunicação, livro que comecei a escrever em meados de 2021. Na verdade, trata-se de uma obra um tanto biográfica, pois associará fatos com os respectivos níveis de comunicação neles envolvidos, assunto que me atrai desde cedo. Por isso treinei sentidos na avaliação de qualquer informação, ou melhor, de como ela é transmitida, e sobre isso já falei e escrevi algumas vezes.
Porque a comunicação incompleta, deficiente ou tendenciosa não forma opinião; a distorce. Isso explica porque, em um passado distante, quando as redações de jornais forjaram grandes nomes, essa geração não teve problemas em se adaptar também ao rádio, depois à TV e mais recentemente à internet, neste caso, reunindo um seleto grupo de profissionais que ainda resiste ao tempo. É bom lembrar, o hábito ou a tarefa de escrever impõe ao seu agente cuidados com a gramática, que naturalmente ele os transfere a sua fala.
Entretanto, assim como os contadores de histórias se popularizaram pelas maneiras com as quais se expressavam, no jornalismo profissional são raros aqueles que conseguem construir narrativas com as devidas flexões, sem exageros ou apelos dramáticos como se artistas fossem. Esse tipo de comunicação, coloquial, é uma das mais difíceis, porque ao mesmo tempo se trabalha com emoção, descrição, experimentação e um conjunto de depoimentos para sustentarem o que classificamos como matéria.
Glória Maria, indiscutivelmente, trabalhou com todas estas ferramentas durante sua longeva carreira, e não à toa seu passamento foi sobejamente lembrado. Mesmo sua definição de “ícone” não foi exagerada, porque, literalmente, ela será lembrada como símbolo de um conjunto de virtudes profissionais: ela teve ousadia, leveza, clareza e seriedade, tudo junto e misturado. Tudo disponível conforme a ocasião. Além disso, teve a capacidade de inspirar outros atores do jornalismo televisivo, que vale lembrar, também é dependente da improvisação, algo que não se aprende nos bancos escolares. E assim, entre tantos depoimentos feitos em sua homenagem, um deles me perece perfeito para definir a sua estatura: “ela parecia alguém da família”.
E por que? Os membros de uma família são próximos, se amam e transmitem confiança; ser comprado a um deles é uma lisonja. Para um jornalista de verdade, a fama é o que menos interessa; transmitir corretamente uma notícia, emitir uma opinião fundamentada e saber a diferença disso é o que nos deixa recompensados. E ela teve muitos momentos assim.