A prática tem a capacidade de expor qualquer teoria, jogando a luz da realidade para que opiniões se reafirmam ou se modifiquem. Na semana passada, me chamou a atenção o posicionamento de um apresentador de telejornal a respeito de um comentário emitido pelo Papa Francisco. O líder da igreja católica, durante uma entrevista concedida no Vaticano, disse que a homossexualidade não é crime, mas é pecado.
Questionado por um sacerdote dos Estados Unidos, dias depois, Francisco esclareceu sua fala, uma vez que em 2019, ele afirmou que “tendências homossexuais não são um pecado”. Segundo ele, “ao mencionar a palavra “pecado”, referia-se a um ensinamento moral da Igreja Católica, que considera pecaminosa qualquer relação sexual fora do casamento, e não especificamente às relações entre pessoas do mesmo sexo”. O reforço foi importante porque, da forma com a qual foi colocada sua fala, dava-se a impressão de que os homossexuais eram pecadores, no que se baseou o comentário do apresentador, ao criticar a posição do pontífice.
Porém, o real objetivo do pontífice, foi reforçado no comentário posterior: “Eu gostaria de esclarecer que (a homossexualidade) não é um crime, para reforçar que a criminalização não é boa ou justa, e eu quero dizer a qualquer um que queira criminalizar a homossexualidade, que eles estão errados.” Este é o ponto, e não à toa, ele reforçou a ideia uma semana antes de sua visita ao Congo, onde as relações entre dois homens são consideradas um crime grave – aliás, quase 70 países em todo o planeta criminalizam as relações homossexuais.
Francisco conhece muito bem os seus limites, dentro das atribuições do papado, mas não deixa de tratar com elegância questões seculares da igreja. Vamos a prática: um homem separado de sua esposa pode continuar a frequentar missas, mas é impedido pela igreja católica de se casar novamente. Um homossexual também pode frequentar a mesma missa, mas não receberá as bençãos nupciais de um padre caso venha a se casar com alguém do mesmo sexo. Recentemente, o esclarecimento foi dado pela Congregação para a Doutrina da Fé, questionada formalmente sobre este tema, e assim caminha a humanidade.
O que me parece sem qualquer sentido é a criminalização, a qual o Papa tenta chamar a atenção. Ao Estado, em qualquer parte do mundo, não cabe o poder de decidir sobre o que seja certo ou errado naquilo que conhecemos como orientações sexuais, e esta é uma questão mais importante a ser combatida.