No início da semana estava chegando em casa quando começou o vendaval, algo já citado nessa coluna. Como a chuva foi “diferente”, quer dizer, soprou de onde normalmente não vem, fui avaliar se havia algum estrago no andar superior, aonde dificilmente vou. Ainda assustado pela força dos ventos, levei outro susto ao passar próximo à janela do meu quatro: lá me encontrei com uma enorme coruja, confortavelmente instalada sobre a máquina do ar-condicionado. Seus olhos estavam fechados, porém me acompanharam quando me desloquei, e afirmo sem ressentimento: que pássaro feio! Não sei ao certo porque as corujas se tornaram símbolos de inteligência ou sabedoria, e não perderei meu tempo em pesquisar. Talvez tenha a ver com o fato de se colocarem em pedestais, como se fossem as principais observadoras do mundo em que vivemos. Como se, daquele alto, delas os outros pássaros esperassem alguma orientação, dado aos seus longos períodos de observação. Na vida real o silêncio não significa sabedoria. Ao contrário, a capacidade de comunicação é extremamente útil em diversas atividades, em especial na política.
Na próxima terça-feira, um dos principais gestores das palavras em nosso país completará o primeiro mês de seu terceiro mandato. E nunca sua capacidade de argumentação foi tão exigida, tão ouvida e não necessariamente engolida. Lula, até agora, segue uma agenda eminentemente pessoal e, desta vez, nem mesmo as exigências de seu próprio partido parecem incomodá-lo. Porque, para tais, ele sugere reuniões, mantra petista que não se atualiza. Provas recentes desta soberba aconteceram na Argentina e mais recentemente no Uruguai, país em que ele tentou “encantar” (ele não é o encantador de serpentes?) o seu presidente para abandonar negociações com a China.
Agora, Lula prepara-se para mais reuniões, desta vez com os governadores, com os quais esteve duas semanas atras, e assim ele vai ocupando o centro das atenções, sem deixar de revelar o real objetivo de responsabilizar seu antecessor por tudo de ruim que encontre pela frente. É interessante, isso, uma porque ele já foi eleito. Depois, porque o país ainda está dividido, polarizado. A destruição parcial da praça dos Três Poderes, dia 8, passou a ser problema da Justiça, e não dele. Ao manter o ex-presidente Jair Bolsonaro na alça de mira, Lula não contribui em nada para a pacificação do país. Ao contrário, ao oferecer seus requintes de perseguição, ele atinge uma grande parcela que o repele.
Acho que a coruja é sábia, de fato, porque sem “dizer” nada, mantém sua fama. Quem fala muito, nem tanto.