Como era de se esperar, o chamado “consórcio de imprensa” não escreveu uma mísera linha em suas edições de hoje sobre o mais auspicioso desejo do presidente Lula, declarado ontem em Buenos Aires. No meio de um pronunciamento que trocou alhos por bugalhos, o governante propôs que sejam abertas negociações entre Brasil e Argentina para o estabelecimento de uma moeda única para transações bilaterais, o que poderia dar “start” para que o mesmo aconteça no Mercosul. Talvez antevendo o que ocorreria com o mercado, como tem sido praxe, o ministro Fernando Haddad esbaforiu-se em melhor explicar o que o seu superior quis dizer, “diferente do que imaginava meu antecessor Paulo Guedes”, ressaltou mais de uma vez. Entretanto, ainda que os jornais não tenham destacado mais um incômodo para a nossa economia, foi inevitável que os comentaristas abordassem o assunto no noticiário noturno.

E, para que a verdade não abandone estes comentários, apenas um deles traduziu o que o presidente falou e o que foi fazer na Casa Rosada. E o disse claramente: Lula foi emprestar seu capital político a um governante em fim de mandato, que tenta manter o comando da esquerda nas eleições deste ano. É evidente que a imprensa de nossos vizinhos reagiu positivamente à fala de Lula, especialmente ao olhar para trás e ver uma inflação que beirou os três dígitos, mas o próprio mandatário deu pistas que se tratava de um “engana que eu gosto”. É simples.

A velha esquerda, como o uso de cachimbo torna a boca torta, dificilmente deixa de atacar o “imperialismo”, e foi isso o que presidente fez ao se referir ao possível abandono do dólar como moeda de paridade. Obviamente, um excelente negócio para os argentinos, que hoje, pelo câmbio oficial, precisam de quase duzentos pesos para comprar um dólar enquanto nós, pouco mais de cinco Reais. Notadamente o passeio de Lula pela Praça de Maio teve interesses essencialmente políticos e cada governante prefere um jeito de aparecer na foto. Lula sempre teve interesse em ser visto como uma espécie de Che Guevara aos povos latino-americanos, mesmo que não exista um cargo ao qual possa concorrer fora do Brasil.

Uns gostam de motos, outros de tapetes vermelhos, e assim caminha este início de governo, enquanto o “consórcio” segue suas próprias apurações sobre o vandalismo de 8 de janeiro. Tudo é legítimo; cabe ao consumidor de informação a escolha.