A relação de governantes e servidores públicos em nada se assemelha a um vínculo patronal, vamos dizer assim. Porque, incialmente, a estabilidade oferece um certo conforto a quem se submete ao direcionamento de um eleito. O que não é de todo ruim: houve épocas, aqui mesmo em Limeira, que se conhecia como a palma das mãos quem era Jurandyr, quem era D’Andrea. A depender de quem vencesse, as perseguições ocorriam a céu aberto e me lembro que cuidar do Horto Municipal era a atividade predileta a ser destinada aos adversários.
Não faz muito tempo, também, um ex-prefeito que amealhou verba da merenda escolar e foi devidamente cassado experimentou um certo prestígio desta categoria. Por falta de quadros, ele adotou o critério de promover servidores concursados para cargos importantes em seu governo, o que praticamente dobrava os vencimentos desse pessoal. Em troca, centenas de pessoas passaram a ter uma dívida de gratidão, e não se importam em saber se ele roubou, o quanto roubou e porque a Justiça, volta e meia, o condena e faz o mesmo com membros de sua família, incluindo laranjas. E como essa dívida é paga? No fornecimento de informações privilegiadas, em sabotagens e pequenos problemas perpetrados contra os desafetos do ex-mandatário. É assim em Limeira, no governo do São de Paulo e em qualquer parte do país, por isso quando se estabelece uma nova cadeia de comando, na prática mudam apenas os gestores, mas os subordinados, não.
O partido do presidente, o PT, se fixou em Brasília durante quase catorze longos anos; muita gente permaneceu na Capital, mas este hiato de seis anos até a sua volta foi tempo suficiente para a construção de novas pontes. E entre os militares, isso se tornou mais acentuado, e o presidente foi recepcionado por uma nova realidade. Não exatamente de insubordinação, mas quase isso. Dá para interpretar, desde a ausência de comandantes prestando continência, até os episódios de domingo, que o estreitamento do diálogo se impõe.
E Lula, hábil negociador, é um líder popular, não militar. Não significa que as Forças Armadas representarão qualquer ameaça, mas o ambiente ainda se ressente da ausência de alguém que o representava mais diretamente.
O tempo pode estancar estas feridas, mas por enquanto este será o cenário com o qual o presidente terá duas coisas a fazer: conversar ou se espernear.