Enquanto milhões de brasileiros retornam aos seus postos de trabalho felizes nesta terça-feira – afinal, não é sempre que a seleção goleia e joga bem, convenhamos –, em Brasília, começa a ser analisada pela Comissão de Justiça do senado uma proposta de emenda constitucional, batizada com várias denominações. É conhecida como a PEC do “estouro”, da “transição” ou simplesmente da “picanha”, mas isso é o que menos importa. Afinal, o que pretende, o novo governo, é simplesmente retirar do orçamento federal os recursos que venham a ser destinados ao Auxílio Brasil, ou ao novo Bolsa Família. Ou seja, o presidente Lula quer que o parlamento confira à sua administração o aval de, nos próximos quatro anos, assegurar a transferência deste e de outros recursos sem que a responsabilidade fiscal seja desrespeitada.

É o mesmo que alguém, com o salário comprometido, contrair uma nova dívida para pagar em 48 meses como se as prestações não tivessem que sair deste mesmo salário. As previsões mais pessimistas falam em uma despesa adicional próxima de 200 bilhões de Reais, porém, no senado, a realidade deve aproximar este valor à casa de 120 bi, ou seja, haverá a permissão para este gasto, mas será concedida de tempos em tempos.

O que seria natural de acontecer e por que a pressa, e por que todo esse tempo? A pressa de justifica pelos ajustes que terão que ser feitos no orçamento do próximo ano, mas a duração se explica pela nova composição política que se incorporara ao Congresso, a partir de fevereiro, não tão alinhada com o governo que chega. Em meio a essas pressões, porém, existem outros problemas a se considerar, o que deve fazer com que essa decisão ocorra apenas depois do próximo dia 13. É que, nesta data, vinte e quatro horas depois da diplomação de Lula, aguarda-se o anúncio de um “pacote” de ministros, o que, a depender da esperada aliança partidária, pode facilitar ou emperrar a busca por este cheque em branco. Por isso os calendários são diferentes: da Copa, do Natal e o da transição.

Lula pode ter os seus defeitos, e os têm aos montes, mas ninguém pode retirar-lhe uma grande qualidade: de ser um bom articulador político. O que isso significa? Lula sabe, como ninguém, o que deve ser oferecido nesta via de mão dupla, de cargos menos expressivos ao comando de empresas de economia mista, o que ele mais terá nas mãos a partir de 2 de janeiro.