O mercado financeiro promete mais um dia de enorme agitação nesta quinta-feira, porque mais uma vez o presidente eleito Lula defendeu o atendimento social em detrimento do chamado teto de gastos. Provavelmente, hoje será um dia daqueles para investidores na bolsa, mas ainda existem muitos temas que gravitam em paralelo, merecedores de atenção. Alguém parou para saber o que significa para Lula “matar a fome”?
Que uma pessoa possa tomar uma xícara de café pela manhã, almoçar e jantar regularmente? Pois então, se ele pretende manter os R$ 600 durante os próximos quatro anos, é bom que todos façam as contas direito. Em primeiro lugar, fome se mata (principalmente) com emprego digno, desenvolvimento econômico e educação. Depois, no pior momento da pandemia, estes mesmos R$ 600 chegaram nos bolsos de quem realmente necessitava de atendimento emergencial: os “invisíveis”. Pessoas que, desassistidas pelo mercado de trabalho, fora do atendimento social regular e principalmente ausentes de um núcleo familiar, não tinham mais como sobreviver com as ruas vazias.
E agora percebam como é diferente a prática do discurso. Faz três semanas, ao contratar um ajudante para realizar pequenas tarefas, perguntei a ele se continuava a receber algum benefício do governo, uma vez que conseguiu receber o “auxílio emergencial”. Diante de sua resposta negativa, minha reflexão foi imediata: ele vive somente com sua esposa, está há dois anos desempregado e sobrevive de bicos colocando folheados em sacos plásticos. Por que ele voltou a ser “invisível” diante dos órgãos públicos? E agora uma última questão. Com base nesta pergunta, sabemos que o caminho de deslocamento de recursos públicos até o bolso dos beneficiários é longo e tortuoso.
O pretexto de “acabar com a fome”, portanto, é mais complexo do que uma simples iniciativa, e pode acabar com o Brasil antes de saciar o estômago de qualquer pessoa. Lula está na contramão de qualquer manual de boa gestão econômica, e pagaria para ver como estão aqueles empresários que se reuniam com ele naquele aparamento de luxo, semanas antes do fim do primeiro turno. Pagaria para ver como se comporta o filho de José Alencar, antigo vice de Lula, diante de seus liderados na Fiesp, lá na Avenida Paulista. E, se sobrasse algum dinheiro, também pagaria para ver como se prepara o Banco Central, com administração independente, para combater os efeitos de um rombo de 200 bilhões de Reais das contas públicas. Ah, e para terminar: por que os 600 Reais de Lula matarão a fome, e os 600 do Auxílio Emergencial não mataram?