Quem, por dever de ofício, observa com mais atenção as marchas e contramarchas da política não possui a menor dificuldade para compreender até aquilo que possa ser chamado de uma “aberração”. Porque é difícil que os comportamentos sejam diferentes, por exemplo, no cumprimento de promessas e acordos. No segundo turno das últimas eleições, a adesão à candidatura de Lula não apenas por adversários como por alguns nomes de relevância artística, econômica e jurídica se deu basicamente por dois aspectos.
O primeiro, no campo político, se deu pelo registro de uma aposta para a natural contabilização dos futuros dividendos. O segundo, para demonstrar repúdio ao presidente Jair Bolsonaro, uma adesão menos técnica ou apaixonada e, que de algum modo, defendia a “democracia”, o pluralismo de ideias. Pois bem. Lula venceu não apenas porque prometeu picanha e cerveja, mas porque se esforçou em demonstrar que faria um governo de “coalização”, o que abriria espaço para a construção de um quadro com inúmeras colorações.
O problema é que o tempo não nos torna melhores ou piores, principalmente altera aquilo que realmente somos em essência. E com o presidente eleito a chance de isso acontecer era igual a zero. Enquanto ele falava de “pacificação”, voltou de suas férias baianas para cumprir um protocolo técnico e falar com autoridades institucionais. Depois, fez o que dele se esperava: falou que o atendimento social justificaria a explosão da dívida pública, em outras palavras. Ou seja, renunciou a indicar que seria o “Lula 1”, e que esse “Lula 3” seria um governo de gastança desgovernada. Como não desmentiu, vários de seus apoiadores de ocasião deram marcha ré, e o mercado financeiro entrou em parafuso. Piorando as coisas, não ouviu conselheiros e foi a Turquia ao lado de um condenado pela Lava-Jato, o que simbolicamente é arrasador.
Como se isso não bastasse, incumbiu seu vice Geraldo Alckmin de anunciar, com regularidade, nomes essencialmente ligados ao PT nesta transição, o que não indica coalizão alguma. Em síntese, Lula não mudou, ao contrário, é uma versão piorada de si mesmo, agora mais velha e rancorosa. E a defesa da democracia que tanto lhe atribuem é apenas quando todos se submetem ao seu comando. Quem, até três semanas atrás, via sua eleição como a realização de um sonho, voltou ao modo “pesadelo” com direito à choro, é claro, como registrado em recente editorial da Folha de S. Paulo. Jornal que mais o defendeu.