Entre os comentários que li e ouvi sobre a aparição surpresa do senador eleito pelo Paraná, Sergio Moro, no debate de domingo, um deles me chamou a atenção porque me pareceu fora da bolha lulista, sob a qual todos os movimentos do presidente Jair Bolsonaro são avaliados negativamente. Pela sensatez, vale reproduzi-lo a bem do exercício da reflexão.

Segundo este comentarista, que discordou de seus colegas enquanto cavavam sepulturas políticas ao ex-juiz, ao contrário do que muitos imaginam, Moro não ambicionava uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Tampouco está preocupado em “perseguir” o ex-presidente como parecia fazer.

De verdade, Moro almeja a presidência da república, e somente recuou desta empreitada quando o limite de tempo imposto a si mesmo se esgotou. Ou seja, quando ficou claro que qualquer nome que representasse a “terceira” via, nesta eleição, não encontraria resposta do eleitor, como de fato aconteceu. Sua manobra de concorrer ao senado, vale dizer, também foi arriscada, porque ele concorria contra políticos tradicionais tendo como discurso único seu combate à corrupção.

Porém, transformado agora em político profissional e pulando várias etapas, diga-se de passagem, ele deve agir e pensar como tal. O que inclui atitudes inesperadas, como reencontrar-se com o presidente Jair Bolsonaro diante de uma ampla e rara exposição nacional. Se este raciocínio estiver certo, a reaproximação com o presidente reforça apenas um novo discurso para Moro, que além de combater os “malfeitos”, como se referia Dilma Rousseff a “roubalheira”, deve perseguir uma linha de centro, mais alinhada com os conservadores e liberais. Moro pode ter sido vítima de uma manobra ardil da Suprema Corte, que raramente torna um juiz cumpridor de sua missão um “réu”, e pode ter, de fato, retirado esta ambição de sua cabeça. Mas, uma coisa é certa: ainda que iniciante na política, seus passos daqui por diante seguirão neste sentido, adicionando uma curiosidade que somente será respondida pelo tempo: como ele será recebido no Senado. Afinal, suas decisões também alcançaram altas plumagens.

E, para encerrar: FHC declarar voto em Lula, foi um gesto “democrático”; Moro, ex-ministro de Bolsonaro, recuar, não pode. Que tempos esses, hein?