Quando o jornalismo era feito com “J”, estagiários e novatos nas redações carregam algumas ambições, entre elas, “manchetar”, o que significava ter uma matéria publicada como manchete do jornal. Porém, naquela mesma época, e aqui me refiro a 40 anos atrás, essas “manchetes” passavam por duas escolhas.
A primeira, mais óbvia, recebia o crivo do editor do jornal, que avaliava entre as matérias que recebia seus níveis de importância. O segundo, no entanto, dependia da sensibilidade do “diagramador”, que nestes tempos tinha de escolher o tamanho das “fontes”. Vivíamos os anos de impressão “à quente”, ou seja, forjadas em lingotes de chumbo, e nem se cogitava que um dia pudéssemos, através do toque das mãos, aumentar ou diminuir textos e fontes. E assim, voltando a questão das manchetes, compô-las em um corpo 42, por exemplo, era o que se esperava quando havia o anúncio do aumento do IPTU ou da tarifa da água. Um assassinato, porém, recebia normalmente o corpo 48 e me lembro de uma vez, o caso era importante e o diagramador sugeriu a utilização do corpo 72, o maior na escala.
Compreendi suas boas intenções, mas depois de pensar um pouco lhe perguntei: – E se o Papa morrer na semana que vem, que fonte usaremos? Dimensionar, portanto, é uma tarefa simbiótica entre editores e diagramadores, e isso está longe de acontecer nestes tempos em que os portais mudam de manchetes a cada três ou quatro horas, a depender de seus próprios interesses. Ontem, passado um tempinho após o tiroteio que envolveu uma ação política do candidato Tarcísio de Freitas, o caso foi tratado como nível 3 nos principais sites noticiosos, como permanece até agora, rebaixado ao número 5 na maioria deles. Ao contrário, segundos depois da divulgação de uma nova pesquisa eleitoral, lá estavam seus números, estampados com todo o destaque pouco depois das 18 horas.
Do ponto de vista jornalístico, uma ocorrência policial que resultou na morte de um marginal não me parece menos grave se foi um atentado, um “aviso” ou um “recado”. Não gostaria de acreditar que a exploração jornalística do fato pudesse beneficiar a candidatura de Tarcísio, e sob esta explicação quase despareceu, porque assim seria melhor que estes editores de portais fossem reclassificados como blogueiros, e não jornalistas. Que os principais meios de comunicação já escolheram o seu lado, não há dúvidas sobre isso, mas sugestionar seus leitores devido a isso, sepultando o bom jornalismo, envergonha este ofício tão importante como nobre.