Até a reeleição de FHC, que recebeu a oportunidade de continuar o seu Plano Real, os eleitores colocavam nas prateleiras de cima aqueles que pudessem controlar a inflação. O ex-presidente José Sarney, por exemplo, deu força para a eleição de mais de 20 governadores de seu partido a reboque do Plano Cruzado, uma grotesca e ineficiente engenharia artificial de congelamento de preços. Portanto o desempenho da economia, não só no Brasil como em quase todo o mundo, é o que importa definitivamente, porque é através dela que uma sociedade sobrevive e vislumbra acesso a alguns confortos. Porém, como nem só de flores se faz a primavera, outras pautas de governança foram estabelecidas não somente aqui, se contraponto a um cotidiano aparentemente estabilizado.

Exemplo dessas movimentações foram encontradas nas vitórias dos “nacionalistas” na Europa e agora, nesta reta final das eleições brasileiras, o debate religioso permeia a movimentação dos candidatos. Para muitos analistas políticos, algo que deveria ficar em segundo plano se levarmos em consideração o número de problemas que ainda temos de superar. Há de se concordar com isso, mas em parte, porque é justo que os eleitores se aprofundem conhecendo melhor as convicções dos candidatos, e em quais correntes emprestam lastro para dirigir seu dia a dia. A exigência de um estado laico, todavia, está acima desta discussão, mas isso não deve comprometer a pontuação destas orientações.

Trata-se apenas do aprofundamento de questões pouco exigidas até agora, como no passado o fato de não ter pesado contra Fernando Henrique Cardoso seu constrangimento ao falar de Deus, o mesmo acontecendo com Dilma Rousseff. Cabe ao eleitor dirigir o seu voto a quem mais se aproxime de seus desejos e comportamentos, oferecendo maior ou menor importância ao que se classifica hoje como “pauta de costumes”. Não deixa de ser uma boa discussão, incluindo o fato de estar longe de ser terminativa, sendo apenas de caráter “orientativo”. É óbvio que essa novidade é indigesta para candidatos acostumados ao linguajar de sempre, em defesa de direitos universais e tudo aquilo que estamos ouvindo há meia década. Mas é saudável que se aplique a estes novos tempos nos quais estão na mesma proporção a liberdade de escolha e de manifestação de pensamento, não exatamente nesta ordem.