Muita gente da minha geração estudou na rede pública, como foi o meu caso, e nela encontrou motivos para se orgulhar do Brasil. Sim, nosso país era administrado por governos militares, não se poderia esperar algo diferente, mas o fato é que parte da história oferecida aos alunos era linear. Ou seja, os chamados “vultos nacionais” eram assim desenhados, bem como seus feitos, e somente com a abertura política, que reconduziu presidentes civis à chefia do governo, novos formatos foram construídos por estudiosos e até mesmo pela cultura. Personagens destacados como D. Pedro I, então, tem recebido novas versões desde estes novos tempos, como o fato de não ter proclamado a independência como sempre foi descrito. Aliás, sobre D. Pedro I, sabe-se mais – ou especula-se – sobre sua vida amorosa do que seus feitos a favor do Brasil, porque é bom lembrar, era um monarca e, como tal, possuía poderes quase ilimitados. Agora, prestes à comemoração de uma data marcante para o novo povo, eis que toda a sua pompa e circunstância será maculada até o 7 de setembro, e por razões meramente políticas. Em Limeira, mesmo, há um monumento até hoje saliente por ocasião das comemorações do sesquicentenário, fixado nas imediações do Centrevile, mas nos concentremos na grande novidade: o translado do coração de D. Pedro I até Brasília. Ainda ontem, um conceituado jornalista nomeou este simbolismo como “visitinha ao Brasil”, mórbida, aliás. “Sem qualquer sentido, desnecessária, um gasto absolutamente descabido” foram algumas de suas considerações. Uma minoria de historiadores também não foi excluída na oferta de considerações: “um risco desnecessário, para fins estritamente eleitorais”, observa esta outra parte. Pois bem. É óbvio que o Brasil não possui, entre sua cultura, o hábito de prestigiar simbolismos históricos através das relíquias. Portanto, o “culto” a um órgão preservado por mais de 170 anos não era de se esperar, mas a questão é que daqui até o dia da Independência, que apresentará contornos políticos, essa “visitinha”, tão relevante aos portugueses e parte de estudiosos brasileiros, será alvo de desprestígio e críticas. A própria reabertura do Museu do Ipiranga, aguardada por muitos anos, seguirá com semelhante destino, e por que? Por que esta permanente divisão, alimentada eleição após eleição, que de concreto não está acelerando nossos padrões de convivência, educação, respeito às instituições e fundamentalmente, a noção que o país não pertence a grupos políticos, mas a todos nos. Uma pena e pobre D. Pedro, não merecia ser distratado assim depois de duzentos anos.