Sem tempo para realizar uma pesquisa mais aprofundada, que de fato seria desnecessária, voltei no tempo para me lembrar de um programa, uma organização ou sei lá o que, muito difundido em filmes norte-americanos faz algumas décadas: os vigilantes do peso. Criados em um período no qual aparelhos celulares sequer gestavam na cabeça dos cientistas da computação, estes grupos se organizavam – de acordo com os filmes dos quais participavam – de modo a acompanhar o comportamento de pessoas que queriam emagrecer. Eles eram tão populares que apareciam até em desenhos animados, como certa vez no formidável “Os Flintstones” – Fred, o icônico personagem principal, não suportava a aparição de pessoas quando tentava saborear um “brontoburguer”.
E os “vigilantes” mostraram resiliência; basta uma pesquisa na internet para descobrir como eles saltaram na idade da pedra até o mundo contemporâneo. Porém, “vigiar” trata-se também de uma recomendação bíblica: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26.41). A menção se refere a repreensão de Jesus Cristo dirigida à Pedro e aos filhos de Zebedeu porque dormiram, e não o acompanharam em orações, por ocasião de sua permanência no Getsêmani.
Mas, vigiar pressupõe agir? Para Alexandre de Moraes, presidente do STE, parece que sim. Ao autorizar buscas e apreensões contra empresários que supostamente estariam conspirando contra a democracia (será que ele se inspirou em Joaquim Silvério dos Reis?), a medida não somente foi exagerada e aparentemente ilegal, como foi criticada até mesmo por fervorosos críticos do presidente Jair Bolsonaro, de quem estes empresários seriam próximos, como Merval Pereira, presidente da ABL. A deputada Janaina Paschoal, entre suas manifestações, observou o seguinte: “Eu gostaria de compreender, para além da questão de mérito, por qual razão o STF expede mandados de busca e apreensão em desfavor de pessoas que não têm prerrogativa de foro, ou, se assim preferirem, foro privilegiado”.
De tão absurdo, o fato está flertando com a ridicularização, mas imagino se o ministro também se preocupasse com outros grupos de WhatsApp. Não haveria agentes da PF suficientes para tamanho trabalho, inclusive para aqueles que seriam realizados aqui em Limeira. Por isso não me perecem exageros aqueles que definem Moraes como imperador, e não ministro. Sua determinação se enquadra melhor no primeiro caso. “Vigiar” a democracia não impõe sacrifícios jurídicos, ou arbitrariedades, como queiram.