Falando sobre os diversos sentimentos pelos quais passamos ao longo de um único dia, uma psicóloga observou recentemente que o “medo” é um dos mais involuntários e ao mesmo tempo importante. Através dele atravessamos uma rua, dirigimos um carro, descemos uma escada ou até mesmo lavamos a louça do almoço, a saber, “medo” de atropelamento, de bater o carro, de levar um tombo e quebrar copos e pratos. Portanto, quanto mais conhecemos o um resultado previsível, mais impomos limites às nossas ações. Na semana passada ocorreu um caso dentro deste contexto. Em Boa Vista, capital de Roraima, no loteamento “Satelite City” (que nome, hein?), no bairro Murilo Teixeira, seus residentes têm se deparado com um “morador de rua” nada peculiar: um jacaré. Como as ruas não são asfaltadas e neste período chuvoso formam-se várias poças d’agua, o réptil deve imaginar que está no paraíso, diante de diversas lagoas para escolher.
Obviamente os moradores estão aflitos, porque não sabem quando se encontrarão com o animal, e mais: o que farão. Alguns deles simplesmente filmam a cena enquanto esperam providências da prefeitura, mas ao que consta ninguém se atreveu a ficar a menos de um metro deste incômodo vizinho. E nestas categorias de “coisas” ou situações que nos causam “medo”, a urna eletrônica se encaixaria? Acredito que a única categoria que as teme é a classe política, mas não elas, exatamente, mas do resultado que oferecem. Porém, nos últimos meses, tem frequentado o nosso imaginário coletivo esta dispensável apreensão e agora a situação ganhou um patamar mãos consolidado. Com a publicação da carta pela democracia nos principais jornais brasileiros, somada à própria manifestação pública do presidente do senado a favor do processo eleitoral vigente, tornou-se absolutamente claro que, a esta altura do campeonato, macular os mecanismos de sufrágio é remar contra uma maré imensa. E aqui uma dúvida: o medo é realmente do sistema ou do que apresentará?
A carta chancelada pela Fiesp, a despeito de ser dirigida por Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar, vice-presidente de Lula – o que pode insinuar uma nova orientação dos empresários –, medir seus impactos é tão necessário como prudente. Ou seja, quem não tem “medo” por vocação, ou porque não gosta de demonstrá-lo, não sinaliza propriamente inteligência, ao contrário, ausência dela. Os sinais estão dados.