Que os governantes são irremediavelmente criticados pela imprensa é desnecessário dizer, muito porque os serviços públicos são falhos, mas não se deve, a bem da boa informação, colocar notícias no lugar de opiniões, e vice e versa. Por ocasião do que fez a Corte Suprema dos Estados Unidos, deixando as decisões favoráveis ou contrárias ao aborto, um raro debate aconteceu quando este assunto foi abordado por um noticioso da Globonews. A apresentadora, fixando-se mais uma vez no personagem que normalmente se transveste, indaga os comentaristas com a seguinte observação: – o que você tem a dizer sobre este absurdo cometido pela corte americana? Ou, – como farão as mulheres pobres, sem dinheiro para se deslocar e abortar em outros estados? Um dos comentaristas, contaminado pelas observações, chegou a afirmar que “as consequências serão desastrosas, e para revertê-las será preciso esperar no mínimo cinco décadas”. Obviamente o programa não estava discutindo o aborto, um tema sempre espinhoso em qualquer ocasião. Ele relacionava a decisão com as recentes indicações conservadoras do ex-presidente Donald Trump na mais alta instância do judiciário dos Estados Unidos, fazendo uma correlação paralela ao que poderá acontecer com o Brasil. Sinceramente não me lembro de ter visto uma defesa tão declarada ao aborto feita por jornalistas, sem considerações pertinentes como as ressalvas legais, avaliações da medicina ou outros temas normalmente relacionados. É isso que dá transformar qualquer pauta que apareça em viés crítico, ideológico vamos dizer assim. E a própria imprensa, à propósito, não estás qualificada para discutir um assunto como este, e sim perguntar aos especialistas para que a opinião pública tome as suas decisões. E me refiro a enxergar vários pontos de vista, porque como tudo nesta vida tem um lado certo, e outro nem tanto. Pobre momento este, que vivemos.