A cada dois meses, em média, um instinto primitivo de saciedade vence um duelo interno e me encaminha até a pizzaria Cometa, do amigo Zé, como aconteceu no último final de semana. Nossos encontros são rápidos, mas durante as conversas aproveito para medir a temperatura do momento, enquanto observo sua destreza ao abrir as massas. “Não sei onde vamos parar… Fui informado que a muçarela chegará a 50 Reais o quilo este semana, dá até vergonha de dizer isso ao cliente”.

O Zé tem outros problemas, diferente do outro, o “Zé Delivery”, um aplicativo criado pela Ambev para venda de bebidas e petiscos. Enquanto ele tem que suportar uma taxa de 15% para entregar suas pizzas com motoboys, seu xará cobra em média uma taxa de 5 Reais para distribuir caixas de romarinhos e refrigerantes de dois litros, sem qualquer reclamação. Um outro cliente, porém, ao se despedir, comentou sobre sua angústia: “O pior é que estamos entre os dois “éles” nesta eleição, um “louco” e outro “ladrão””. Embora exagerada, esta opinião não deixa de refletir sobre o que eleitores terão que decidir nos próximos 97 dias que nos separaram das eleições presidenciais. Pesquisas indicam que este não será o caso de aproximadamente 70% dos eleitores, que se declaram absolutamente convictos de sua escolha, o que me deixa ainda mais curioso, a explicar.

O ex-presidente Lula chegou ao Palácio do Planalto não pelas mãos dos pobres e miseráveis, mas pelo voto de parte de uma classe média que não estava mais satisfeita com os rumos do Plano Real, abandonado por FHC. E se reelegeu, e fez sua sucessora, porque refez os cálculos mantendo o curso, e exatamente esta mesma parcela de assalariados e pequenos empresários que, assim como Zé, do Cometa, está sofrendo com a carestia. Estes eleitores não querem saber se a pandemia quebrou a economia, quanto tempo pode durar a guerra na Ucrânia e se o nome do novo presidente da Petrobrás será aprovado ou não. Eles só querem que a muçarela volte a 35 Reais o quilo, e a gasolina a quatro e cinquenta.