Transmitir mensagens religiosas é um hábito abraçado por muita gente. E, como um ato voluntário é mandar, absorvê-las também o é. Principalmente quando enveredam por aquelas searas da “salvação”, não conseguem explicar se, afinal das contas, estamos livres do “pecado”. Porque, do contrário, para alguns cristãos, arrependimento e penitência são atos subsequentes, algo que no mundo real é substituído por crime e castigo, especialmente em regimes totalitários.
Não há dúvidas que, na maioria das vezes, sabemos quando e porque erramos, voluntária e involuntariamente, e o jornalismo não escapa desta possiblidade. Por isso mesmo, enquanto assistimos atos de bravura na resistência ucraniana, saltou aos olhos ontem uma destemida aparição. Durante a apresentação de um popular telejornal moscovita, uma jornalista apareceu atrás da apresentadora exibindo um cartaz no qual dizia: “Pare a Guerra, estamos sendo enganados”.
Claro que a transmissão foi interrompida, claro que ela foi presa em seguida, e é claro que seus advogados estão sem contato com esta corajosa jovem que, sabendo que isso aconteceria, gravou um vídeo dizendo que se arrependia por fazer parte de um sistema de manipulação de notícias. Filha de mãe russa e pai ucraniano, estava envergonhada por ter noticiado apenas o que era permitido e que a tal “operação especial” não passa de uma sangrenta invasão territorial absolutamente descabida. Uma guerra!
Não é incomum que muitas vezes, por sobrevivência, aceitamos invasões éticas ou morais às quais somos contrários, mas é uma conta com data para chegar. Exceto se estas situações consigam desviar as raízes de nossa personalidade, algo sempre improvável, haverá sempre um ponto de inflexão, de menores ou maiores proporções. E, cá entre nós, as mentiras continuarão a ser insustentáveis em qualquer parte do planeta, pelo seu peso, pela sua essência.
A bravura desta jovem jornalista diz isso com todas as letras!