Faz algum tempo, para contextualizar um comentário, uma pesquisa rápida revelou-me uma informação inquietante: atualmente, existem mais de 700 favelas no Rio de Janeiro, concentrando quase um milhão e meio de moradores. Rapidamente me transportei para uma época na qual me deslocava com muita frequência para a capital fluminense. Desde os anos de 1950, meu pai nutria uma predileção intensa com aquela capital, fascínio que eu, e depois minha irmã, herdamos com certa facilidade. Lá atrás, em uma destas viagens, me lembro do “Fla-Flu” instalado na Zona Sul quando o ex-governador Leonel Brizola empreendeu todas as suas forças para instalar prédios escolares modernos no entorno das favelas mais conhecidas, hoje chamadas de “comunidades”. Cariocas da gema não se conformavam com isso, dizendo que ele deveria investir em política habitacional para devolver os morros à natureza. A gritaria foi e vão, pois, o número de eleitores de Copacabana, Leblon e Ipanema, incluindo os habitantes das imediações da Avenida Getúlio Vagas, onde antigamente as escolas de samba desfilavam, não chegava aos pés, comparado, dos moradores da Baixada Fluminense. O tráfico de drogas, percebendo que estes núcleos serviriam somente para questões eleitorais, rapidamente ocupou o papel do Estado, anos mais tarde forçado a rivalizar com milicianos esta função. As favelas cariocas jamais deixarão de existir, mas, a exemplo de outras regiões semelhantes, não foram projetadas: nasceram, cresceram e se multiplicaram sob os olhares complacentes dos administradores públicos. As regiões de Francisco Morato e Franco da Rocha, em São Paulo, infelizmente foram duramente atingidas pelas últimas chuvas, como há muitos anos foram atingidas Petrópolis e Teresópolis, no Rio, contabilizando deslizamentos de terra e vítimas fatais. Mais uma vez os índices pluviométricos foram apontados como causadores dos desastres, e, novamente, as autoridades públicas são acusadas na letargia na execução de obras preventivas. Que olhar modesto e raso! As pessoas constroem nas encostas dos morros não porque querem, mas porque não encontram oura saída. Os políticos, de olho no voto, permitem, as Câmaras silenciam, e assim, de tempos em tempos, tudo se repete. Triste nação insensível a nossa, que parece se unir apenas na dor.