Quem prefere fortes emoções no lugar de novelas e reality shows não perde o noticiário noturno. Cada plataforma, à sua maneira, quase sempre oferece aos seus visitantes elaborados resumos dos principais fatos do dia e, cada vez mais, com olhares críticos. Desde que separadas formalmente, notícias e opiniões podem conviver tranquilamente, e por este aspecto, o “resumão” de ontem esteve, sem dúvida, entre os “top 10” de 2021. A enxurrada de desencontros provocada por alguns fatos entorpeceu as redações a ponto de um repórter, ao tratar de um tema que abordaremos a seguir, ter dificuldades para apresentar mais uma reviravolta no réveillon carioca. Porém, antes disso, o “me engana que eu gosto” determinado pelo governo federal em relação à chegada de turistas no Brasil chegou a ser hilário. A devoção do ministro da Saúde ao seu cargo e não à sua profissão, em particular, teve a capacidade de revoltar duas ciências ao mesmo tempo, médica e jurídica. Quanto à primeira, pela preferência de uma quarentena de cinco dias, sem qualquer controle, imposta aos viajantes que cheguem ao Brasil, medida que não foi acompanhada da exigência do passaporte vacinal – algo que seria mais simples e eficaz contra a circulação da nova variante da Covid-19. Em relação à segunda, preferir a morte à perda da liberdade, não é aplicável nesta situação. O seria, talvez, em 1825, quando o Brasil entrou – e perdeu – na Guerra da Cisplatina. Ou, talvez, em 1943, quando pressionado, nosso governo criou a Força Expedicionária Brasileira para lutar contra o nazismo. Portanto, lutar contra opressões a máxima se justifica, mas inexiste infração constitucional quando, para o bem da própria vida, e sua consequente liberdade, se impõe uma condição que assim a preserve. Por este passeio noticioso registrou-se também o risível arquivamento, por prescrição, do caso do Triplex do Guarujá – assunto que trataremos em comentário específico – entretanto, a noite ainda reservaria a cereja do bolo. No final de semana, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, anunciou, com o semblante caído, o cancelamento do réveillon em Copacabana, obrigado a seguir orientações científicas. Agora, sem que nenhuma novidade determinasse novas medidas contra a variante Omicron, governo e prefeitura anunciaram algo “diferente”, adaptado à pandemia. A queima de fogos será mantida – como sempre –; haverá restrição de estacionamento na orla – como sempre – e, para distração do público, trilhas sonoras serão executadas “em caixas acústicas” – também, como sempre. Este é o Rio. Isso é um pouco do Brasil, um país que, mesmo às vezes parecendo torcer pelo vírus, não é derrotado por ele.