06/12/21
Cinco amigos perceberam, há pouco mais de dois anos, que havia muitos elos em comum entre eles, além do fato de fazerem aniversário em junho. Apreciavam boas comidas, bons vinhos e, lá atrás, reconstruíram seus ninhos afetivos. Bem-sucedidos profissionalmente, decidiram realizar um aniversário comum, e escolheram os anos de 1970 como tema principal da festa. A pandemia, obviamente, transferiu a comemoração para este último final de semana, e assim mais de 500 pessoas levaram seus cumprimentos aos aniversariantes até uma casa de festas em nossa cidade. A organização, como era de se esperar, estava impecável, desde recepcionistas que guardavam os presentes – a solicitação indicava a doação de produtos de higiene pessoal – até os finos canapés dispostos em mesas bem decoradas. Como pano de fundo, um telão exibia trailers de filmes daquela época, incluindo os melhores momentos de Brasil e Itália, jogo que nos deu a Jules Rimet. Depois de uma entrada triunfal entre os convidados, esses amigos passaram, a partir deste ponto, a receber abraços calorosos, sinceros e tocantes. A alegria seguiu contagiante, e enquanto observava cenas tocantes, imaginava o quanto foi longa aquela espera. E o quanto esta “nova vida” a qual se submeteram lhes fazia bem. Dois deles, até onde sei, tiveram problemas com a Covid-19, chegaram a ser internados e se recuperam bem. Não posso dizer se este fato, em alguma medida, ofereceu a eles maior disposição para tal celebração, mas teve seu peso. Esse furacão sanitário que colocou o mundo de joelhos, se não foi suficiente para impor à humanidade, melhoras do ponto de vista existencial, ao menos reforçou, em muitos, um olhar mais atento sobre a brevidade humana. De como nossas escolhas podem ser diferentes e o quanto nossas vidas podem ser reconstruídas, às vezes sobre pilares que jamais imaginamos. A pandemia que abreviou muitas jornadas é a mesma que nos abriu dúvidas, entre elas, do que seja provável e possível. Do que se possa esperar e daquilo que seja uma urgência, e viver é urgente. 50 anos, que nos distanciam de 1970, é um sopro de existência, e se mesmo neste tempo algo ficou para trás, o depois está no agora. É isso que comemoravam, é sobre isso que devemos refletir, permanentemente.