07/12/2021
Depois que embutiram nos aparelhos celulares suas capacidades extras, e não apenas as de falar e ouvir, há pouco que podemos fazer contra invasões de privacidade. É um efeito colateral da praticidade de termos dispensado, faz um bom tempo, antigas bolsas térmicas que carregavam filmadoras e máquinas fotográficas. Sobre esses limites, nada existe em livros de etiqueta, antigamente devorados como códigos de conduta, o que equivale dizer, de posse destes dispositivos, assumimos a direção de pequenas ou longas histórias, e aqui existe uma diferença importante. Se, no passado, entre a revelação de um filme até a escolha das melhores cenas havia um certo tempo, isso ficou para trás. Ou seja, desde que as transmissões ao vivo caíram no gosto popular, especialmente como efeito da pandemia, a separação entre fatos públicos e privados ficou fora de controle. Portanto, cabe a cada personalidade, principalmente de interesse social, o devido “policiamento” de suas manifestações. Isso decreta o fim da liberdade de manifestação? Penso que não, entretanto, seus reflexos se tornaram mais possíveis. Caso que está ganhando alguma projeção, esta semana, diz respeito as manifestações da primeira-dama Michele Bolsonaro, enquanto aguardava a aprovação do nome de André Mendonça ao STF. Logo após a divulgação do resultado, em sala contendo uma pequena – para se dizer o mínimo – aglomeração, ela manifesta sua alegria com uma espécie de êxtase religioso, dando pulos e citando frases incompreensíveis até finalmente abraçar o novo indicado. O estranho episódio foi explicado por parlamentares pertencentes à base evangélica do Congresso, mas isso não foi suficiente para desencorajar ativistas das redes sociais, que transformaram este momento em chacota, o que agora Michele classifica como “intolerância” religiosa. Será? Convenhamos, a primeira-dama não acompanharia aquela votação se não estivesse em um ambiente restritivo à estranhos, o que demostra que alguém de seu entorno não apenas filmou como tornou sua manifestação pública. Como observei, todos estamos sujeitos a isso, mas existe uma outra questão. Festejar esta indicação como se dela fosse, e com o entusiasmo digno de uma final de campeonato, é algo comprometedor, talvez não agora, mas o será no futuro. Autoridades, e aqui incluem-se pessoas de ser entorno próximo, devem deixar de lado suas paixões enquanto governam para todos, e não apenas para quem se manifestam de maneira tão singular e, perdoem o exagero, afetiva.