* Publicado originalmente em Blog do Ogro

Quem transita pela Rua Doutor Renato Kehl, no Parque Hipólito em Limeira, pode talvez não se atentar, mas o homenageado na via é pai de um dos movimentos racistas mais tristes na história do Brasil. E você não vai gostar de conhecer esse pessoal, caso ainda desconheça (e realmente espero que você não goste, senão estará lendo o blog errado).

A eugenia foi uma doutrina que pretendia, basicamente, tentar melhorar as características genéticas da população humana, por meio da ideia de excluir alguns segmentos não desejáveis da sociedade e impedir, assim, sua reprodução. Nem preciso falar sobre quem eram os indesejáveis, preciso?

O foco era eliminar negros, asiáticos, pessoas com deficiência física e mental, além de viciados e indigentes, para tornar a humanidade “mais pura em sua hereditariedade”. Uma das formas de erradicação optada era a esterilização em massa dessa população.

Kehl foi um médico sanitarista nascido em Limeira em 1889 e se tornou o grande nome do movimento no Brasil entre as décadas de 1910 e 1930, abraçando as ideias recém-trazidas da Europa. Sua aproximação com um modelo de eugenia mais radical, seguindo a linha de higiene racial alemã, ficou mais evidente quando realizou uma viagem de cinco meses pela Alemanha no final dos anos 20.

Recomendo a leitura de um texto da revista Superinteressante sobre o assunto, esclarecendo como foi a política que queria embranquecer a população:

“Nesse período, o médico Renato Ferraz Kehl, que havia atuado no Departamento Nacional de Saúde Pública, organizou uma reunião de médicos em São Paulo para discutir a eugenia. Ele era um dos maiores extremistas dessa seara – e um dos poucos que, hoje, são abertamente condenados nos livros de história”.

“Grande nome do movimento eugênico brasileiro, Renato Ferraz Kehl concentra hoje, sozinho, quase todas as críticas ao assombroso affair do Brasil com a eugenia”.

Nos prints abaixo, uma obra-prima que encontrei nos arquivos do Estadão: a resenha de um livro seu, chamado “Como escolher um bom marido”, onde monta um manual de instruções para que mulheres escolham seus cônjuges a partir de sua ancestralidade: “Não despose, pois, nem mesmo uma pessoa sadia que pertença a uma família doente. Examine o pai, a mãe, os irmãos, os tios, os avós, se quiser conhecer a espeficidade hereditária do seu candidato”.

Militares

Limeira possui pouco mais de 3.200 vias registradas no site dos Correios e algumas delas também homenageiam nomes que estiveram ligados diretamente à ditadura militar.

É o caso de Humberto de Alencar Castelo Branco e Artur da Costa e Silva, principais articuladores do Golpe de 1964. Ambos se tornaram presidentes em um período marcado pela restrições das liberdades e supressão de direitos, da tortura e perseguição a opositores, além da dissolução de partidos políticos e fechamento do Congresso Nacional.

A rua em homenagem a Castelo Branco, responsável por cassar políticos, limitar direitos constitucionais e declarar o fim da eleição direta para presidente, foi decretada em 1968, pelo prefeito Paulo D’Andrea, e está localizada no Jardim Mercedes, mesmo local onde está instalada a Delegacia de Defesa da Mulher. Uma infeliz coincidência, não?

Já o nome do Marechal Costa e Silva, o pai do Ato Institucional nº 5 (AI-5), foi designado a uma das mais importantes avenidas da cidade, em 1970, pelo então prefeito Sebastião Fumagali. Antes era conhecida como Avenida Campinas, no Jardim Glória.

Outro nome ligado a golpe é o de Eurico Gaspar Dutra. Se aproximou do presidente Getúlio Vargas por conta de seu combate contra o movimento constitucionalista paulista em 1932, ajudou no estabelecimento da ditadura do Estado Novo e chegou ao status de Ministro da Guerra, defendendo que o Brasil lutasse ao lado da Alemanha e do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Anos mais tarde, em 1945, se uniu à oposição de Vargas no golpe militar que o destituiu do cargo e, assim, venceu as eleições naquele ano. Décadas mais tarde, conspiraria em apoio ao novo golpe militar, chegando até a ser cogitado para presidente novamente.

Sua rua, também no Parque Hipólito, foi decretada em 13 de maio de 1982, pelo prefeito Waldemar Mattos Silveira. Junto com ele, no mesmo decreto aparecem os nomes de outros presidentes e militares (como o do Brigadeiro Eduardo Gomes, que ajudou a derrubar Washington Luís da presidência e também foi forte conspirador em 1964) e o de Renato Kehl, em uma daquelas infelizes coincidências: homenagear um eugenista no dia em que é celebrada a abolição da escravidão no Brasil.

Aparece até o nome de Júlio Prestes, presidente eleito em 1930 e que não chegou a assumir o cargo (quem toma a cadeira é Getúlio Vargas, estabelecendo assim sua ditadura de 15 anos). E ver todos esses nomes juntos no mesmo decreto é um malabarismo histórico digno de registro.

Um detalhe: até hoje, nenhum logradouro em homenagem ao presidente deposto em 1964, João Goulart. A velha ameaça comunista parece mesmo deixar marcas ao longo das décadas: apesar de nunca se concretizar, é sempre usada como desculpa para adventos surgirem para combatê-la. Aceita-se Vargas, mas arrepia ao citar Jango?



Na Câmara

A vereadora Mariana Calsa apresentou um projeto que pretende barrar a denominação de logradouros com nome pessoas que tenham cometido crimes contra as mulheres. Talvez pudesse repassar alguns dos nomes já perpetuados para ver quais foram condenados e ainda assim mantém o nome em alguma via.

Em 2018, um projeto pretendia mudar o nome da Avenida Costa e Silva para Avenida da Joia, apresentado pelo então vereador Wagner Barbosa. Recebeu parecer contrário da Comissão de Cultura e Educação, “em virtude da desconstrução histórica, dos usos e costumes dos cidadãos desta municipalidade, e, por conseguinte afetando a cultura local”. Assinado pelo ex-vereador bolsonarista, Clayton Silva. Sem novidades aqui.

Já em 2014, a vereadora Erika Monteiro apresentou um projeto que tratava justamente da troca de nome de logradouros públicos. A intenção era facilitar a mudança em locais com nomes de “autoridade que tenha cometido crime de lesa humanidade ou graves violações de direitos humanos”.

Coincidentemente ou não, o projeto original foi protocolado em 31 de março, no aniversário de 50 anos do golpe militar. Mas a proposta acabou sendo arquivada em 2016, após receber várias emendas protelando sua votação, já que muitos vereadores na época não aprovavam a ideia.

Em 2015, São Paulo começou o projeto Ruas de Memórias, com o objetivo de trocar a nomenclatura dos logradouros que faziam homenagem às figuras da ditadura militar. O Viaduto 31 de Março, localizado no distrito da Sé, teve seu nome trocado para Viaduto Therezinha Zerbini, referência na luta das mulheres pela anistia durante a ditadura militar. Já o Elevado Costa e Silva – mais conhecido como Minhocão – foi rebatizado de Elevado João Goulart.

Por aqui, creio que não haverá qualquer movimentação nesse sentido. O perfil profundamente conservador da cidade parecer ter orgulho de ostentar esses nomes em suas ruas. A reparação histórica está longe de acontecer.