-Arthur, arruma essa bagunça!
-Que bagunça mãe? Está tudo arrumado!
Estava um verdadeiro ninho de égua aquele quarto! A cama toda bagunçada, dois moletons amassados em cima da cadeira. Na bancada onde ele faz aula online não dava para ver o notebook porque os cadernos e livros didáticos estavam em cima dele e sobre eles o fone, parecia que tudo ia desabar a qualquer momento e ainda havia outra pilha de livros prestes a desmoronar na mesinha de cabeceira. Em cima do teclado estava o ukulele, a escaleta e dois carregadores de celular. No chão uma confusão feita de uma garrafa plástica, barbante, rolhas, fios, clips,…
-O que é isso no chão, Arthur?
-Uma invenção!
-Invenção do furacão Katrina, né Arthur! Recolhe tudo isso!
Eu não sei que mania é essa que filho da gente tem de vir ao mundo para fazer tudo que a gente detesta.
Arthur tem mania de guardar tudo que encontra, pedrinhas, restos de fios elétricos, além dos pedaços de equipamento eletrônico que ele desmonta; isso sem contar esse encanto por coisa antiga. Gente, eu sempre detestei acumular coisa e meu filho tem um nicho da estante cheio de velharia que ele caça na casa dos avós. Tem walkman, radio a pilha, celular tijolão, um monte de fitas cassete e ainda há um outro nicho com as antiguidades que ele compra na feira da Praça Benedito Calixto.
“Ah Vivi, o Arthur é uma alma muito antiga!”
Alma antiga desprovida de senso de organização né!
Eu comprei duas caixas que chamei de deposito de tranqueira. Uma é um Puff “de dois lugares” e outra é uma caixa amarela grande. Deus me livre de ter que abrir aquilo algum dia, eu acho que deve ter até cobra lá dentro, mas enfim, foi a forma que eu encontrei de respeitar o jeito de ser dele sem enlouquecer em meio àquele projeto de sebo-garagem-antiquário-laboratório-depósito-estúdio musical que é o quarto dele.
-Arthur, quarto desarrumado é mente desarrumada!
-Isso nas suas teorias psicológicas, né mãe! Eu não tenho mente desarrumada, minha mente é muito arrumada! Você não sabe nem fazer raiz quadrada de cabeça….
Gente, de onde veio esse ser humano a me enfrentar dessa forma?
“Socorro minha Nossa Senhora Aparecida, me diz que um dia você também já quis chacoalhar seu filho….” Não, pera, seu filho é Deus, o meu é um menino humano que passou na fila da teimosia dez vezes antes de descer para a terra.
-Arthur, arruma isso!
-Não vou arrumar só porque você mandou!
Eu comecei a rir, mas foi de desespero.
“Ah, é taurino Vivi, eles são teimosos mesmo!”
Pois ele que trate de encontrar um ascendente em câncer para suportar o meu reinado leonino dentro desse lar.
-Arthur, quem manda aqui sou eu, arruma isso! Eu vou ligar o robô e não há como ele passar nesse chão forrado de pecinhas… Ah, e arruma essa cama!
-Já está arrumada!
Nossa, uma arrumação que mais parecia que um tornado havia passado ali. Um murundum de edredom, lençol, roupa, boné…
-Você é muito chata, mãe! Eu gosto do meu quarto assim. Sai daqui.
-Eu não sou páreo para sua teimosia viu Arthur! Quem manda aqui sou eu!
“Aliás, não só aqui, mas no mundo segundo meu signo de leão!”
Ele me ignorou, me ignorou tão completamente e de uma forma tão bem resolvida que minha vontade era deixar que alguma pomba gira desocupada baixasse em mim ou de entrar naquele quarto com um saco de lixo de cem litros e jogar tudo que estava fora de lugar dentro dele, mas minha única reação foi:
-Te amo filho, arruma isso agora.
“Ai que imbecil, ainda digo que amo… Geração ridícula de mães culpadas essa a minha.”
Bati a porta e saí, mais com raiva do que com amor, confesso, mas saí.
Voltei com o robô nas mãos, coloquei no chão e liguei.
-Chataaaaaaaaaaaaaaaaaa!
-Te amo filho!
Nunca brinque com uma leonina com ascendente em leão.
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