Vamos ser bem francos e diretos. Sem rodeios ou proselitismos, apenas buscando nesse pequeno mundo em que vivemos, a nossa própria razão para viver. E nada mais nos representa, e nos assusta também, do que a realidade. O imaginário é aquele momento único em que, sozinhos, nos preparamos para a vida dos nossos sonhos. Sonhos que podem ser plausíveis, mas esbarram sempre na realidade, que nos indica o caminho. E contra a realidade não se briga, não se guerreia, pois ela é muito mais forte que todos nós juntos e mais um pouco. A realidade não aceita o imponderável, senão dos nossos próprios pensamentos.
O porquê dessa introdução? A resposta é simples. E muito real. Estamos vivendo um colapso social e político, que nem imaginamos ainda onde pode chegar. Onde o real e o imaginário se convergem para ao mesmo tempo se colidirem, por que apesar de serem frutos de uma mesma árvore, são diversos em tudo. E nunca chegarão juntos. Esse colapso social e político é fruto do imaginário do presidente Jair Bolsonaro, que tenta criar um mundo paralelo para ele e para os seus.
Seus familiares, seus partidários, seus tudo, para não deixar o barco afundar, mesmo sem rumo e já em rota de colisão. Nos últimos dias Bolsonaro vem, com seu círculo imaginário, tentando se apoderar de uma realidade que desconhece. A realidade do dia a dia, cujas contas somam mais de 580 mil mortos e outros tantos 20 milhões infectados pelo coronavírus, que desse seu início foi negado por ele, por que preferiu dar ouvidos ao negacionismo científico de previsões irreais, enquanto o mundo caminhava para uma pandemia, proporcional talvez à gripe espanhola (que era norte-americana) e à peste negra.
Bolsonaro poderia, hoje, estar surfando em ondas favoráveis caso tivesse entendido o recado de seu então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Sem ter que criar polêmica entre o real e o imaginário, para afirmar e reafirmar sua autoridade. E tudo aquilo que mais preza, ou seja, outubro de 2022, quando vai concorrer à reeleição.
Ele foi eleito por um enorme movimento, o antipetismo, gestado e criado pelo próprio PT e, agora, em vez de refletir sobre os mesmos erros, começa a enfrentar um anti-bolsonarismo, criado pelo próprio bolsonarismo, levando-o a um embate contra as demais instituições democráticas, pois em seu mundo imaginário ele não errou. Enquanto que o mundo real mostra todas as mazelas de seu governo, agora aos cacos, desfazendo-se em denúncias de corrupção, que foi justamente o que o elegeu, ou seja, o seu discurso anticorrupção.
O desespero que bate a porta de Bolsonaro é provocado pelo mundo real. E ele já não consegue juntar os cacos de seu mundo imaginário, o que o tem levado às agressões verbais contra tudo e contra todos, que não concordam com ele. Ao não assumir uma política nacional de combate à pandemia, com todas as premissas então preconizadas e seguidas pela maioria dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, insistindo no imaginário de uma gripezinha, uma chuva fraca que não deveria ser causa de mi-mi-mis e nem de frescuras ou chororôs, Bolsonaro apostou na negação. E a negação o leva de volta ao seu estágio inicial de deturpação da realidade.
Fica, disso tudo, uma dúvida: até onde as bravatas de Bolsonaro irá nos levar e quantos estarão, de fato, dispostos a caminhar com ele, se muitos movimentos à direita também já começam a se manifestar contra ele? Não nos esqueçamos, também, que foi justamente a união entre a esquerda e a ultradireita, que derrubou o gabinete do primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu. E para isso ser possível por aqui teríamos que contar com a humildade política dos representantes dessas alas ideológicas.
Por enquanto, enquanto a banda passar não temos com o que nos assustar!

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