Eis que, do nada, um artigo publicado pelo The New York Times foi reproduzido esta semana pelo jornal O Globo, tendo como entrevistado ninguém menos que Sua Santidade Dalai Lama, líder espiritual tibetano e autor de dezenas de obras literárias as quais, em boa parte, fizeram parte do meu cotidiano há mais de uma década.

O texto reproduziu, em síntese, visões sobre o “egoísmo sábio” e movimentos que incluem a generosidade, altruísmo e abnegação, assuntos para outra ocasião, incluindo propostas sobre meditação diária. Entretanto, é difícil dissociar por esta perspectiva e de maneira antagônica, dor e sofrimento, e como cuidamos disso, depois que as imagens do terremoto turco consumiram boa parte do noticiário de ontem. Porque, as maiores religiões do mundo, enquanto passam orientações de vida, nos propõe maneiras de interpretar os infortúnios.

No próprio budismo, a busca pela iluminação impõe derrotas espirituais temporárias, mas em todas elas, se os seus seguidores serão recompensados por seus prodígios, mas como compreender porque desastres naturais conseguem retirar do planeta milhares de pessoas que sequer tiveram a chance de fazer uma oração? Que lições, se é que podemos considerá-las assim, eventos desta magnitude propõem àqueles que continuam o exercício diário da sobrevivência? Talvez em tempo algum, jamais tivemos à disposição tantos canais, sites, grupos e profissionais da saúde mental apresentando as mais variadas propostas de autoajuda. E se isso acontece, talvez seja pelo fato de que, também de maneira inédita, a sociedade esteja se sentindo muito fragilizada. Certamente doente.

As contraposições que parecem se autoalimentar diariamente não constroem nada de positivo, essa é a verdade. Zero de altruísmo. Os enfrentamentos, ao contrário, parecem abastecer instintos que remontam à idade medieval. Portanto, não dá para perceber que a perenidade de uma existência pode ser ainda mais efêmera diante de um desastre? Que enquanto apontamos o dedo para julgar, milhares de situações incontroláveis desviam destinos em todo o mundo? Quem somos nós, definitivamente, para dizer o que seja certo ou errado, adequado ou irrelevante, diante deste emaranhado de problemas?

O avanço da idade, certamente, nos torna mais sensíveis, mas nunca é tarde para pensar novamente, e com mais profundidade. Se não conhecemos o tempo que dispomos, é bom lembrar que, de qualquer maneira, ela passa muito rapidamente, em trilhos sobre os quais colocamos as locomotivas da vida. Se desgovernadas ou não, cabe a cada um decidir.