Quase todas as pessoas sabem que a ONU foi criada depois da segunda Grande Guerra, mas até hoje existem dúvidas sobre a sua relevância. Porque, de prático, a Organização das Nações Unidas releva-se uma sofrível mediadora, vide seu desempenho no conflito que envolve Rússia e Ucrânia.
Talvez essa irrelevância se dê, objetivamente, porque as nações são soberanas, isto é, são administradas segundo regras adotadas com o passar dos anos, fruto de colonização, independência ou simplesmente porque são seculares. A globalização econômica, contudo, aproximou os povos sem qualquer intervenção das Nações Unidas, porque quando se faz um negócio, poucos se interessam em conhecer o parceiro profundamente; o que se almeja é um produto. E, do ponto de vista cultural, isso é mais complexo ainda, principalmente quando são confrontados os hábitos ocidentais e orientais. Nas chamadas Américas e na Europa, democracia, livre iniciativa, alternância de poder e principalmente a tolerância à diversidade são características tão naturais que nem nos damos conta que existem, o que do contrário nos surpreenderia.
Por isso entranhamos quando nos deparamos com algumas culturas que reprimem, não aceitam ou criminalizam hábitos e comportamentos que os temos como universais. É interessante observar que esse choque cultural, muitas vezes, incita manifestações compreensíveis, porém não possuem o condão deliberativo, ou seja, por mais estranho que possa parecer um regramento, eles são absolutamente comuns entre outros povos porque suas origens são diversas. Muitas vezes assentadas em orientações religiosas, quando essas se confundem com o poder do Estado.
O discurso feito pelo emir do Catar, na abertura da Copa do Mundo, causou alegria porque em dado momento a “diversidade”, segundo ele, era bem-vinda ao país. Enquanto formadores de opinião mais radicais continuam criticando o Catar, seja pelas restrições ao consumo de bebidas alcoólicas, por violações aos direitos humanos, das mulheres ou intolerância aos membros LGBTQIA+, seria melhor que refletissem sobre esse “apontar o dedo”. Se isso também não se configura intolerância àquilo que julgam como aceitável ou normal. Porque se um país possui mais de 80% de sua população estrangeira, é porque este contingente decidiu morar lá, e se submeter à todas essas “restrições”. As nações, insisto, são soberanas, e discriminá-las por isso é tão preconceituoso como em sentido contrário. Durante 28 dias, o Catar fechará seus olhos e aceitará, dentro de regras mínimas, aquilo que não faz parte de sua cultura, e ninguém pode obrigá-los, depois desse tempo, a mudarem seus hábitos.