No dia 22 de abril de 2013, com mais de oito mil páginas, o Supremo Tribunal Federal publicava o acórdão do julgamento da Ação Penal 470, depois de uma intensa barulheira política em torno daquilo que ficaríamos conhecendo como “esquema do mensalão”. Resultado de denúncias feitas especialmente pelo então deputado Roberto Jefferson, a apreciação dos ministros, liderados por Joaquim Barbosa, condenou representantes de diversas agremiações partidárias, em especial do PT. A razão é que se atribuía ao presidente Lula o comando de um complexo sistema de irrigação de recursos para obter apoio do Congresso em torno de medidas que entendesse necessárias para o seu governo.
A visibilidade de Barbosa, à época, concedeu-lhe uma notoriedade incomum para membros de uma corte constitucional, fortalecendo a credibilidade de uma instância julgadora que disso depende. Porém, anos mais tarde, em 31 de abril de 2016, ao final do julgamento do impeachment da presidente Dilma Rousseff, a primeira ruptura se deu. Seguindo os ritos constitucionais, o processo foi mediado pelo ministro Ricardo Lewandowski, indicado pelo PT, mas apresentou um desfecho curioso, para não se dizer sombrio. Naquela data, com o afastamento de Dilma concluído, Renan Calheiros tomou a palavra entre seus pares de senado para enviar a senha ao ministro presidente, autorizando-o a criar uma jabuticaba constitucional. Quando todos sabiam que ela deveria não apenas ser afastada do cargo como perder seus direitos políticos, Calheiros disse que, no Nordeste, fala-se uma frase com a qual ele não concorda: “além da queda, coice”.
Ou seja, derrote, mas não humilhe. Dilma, portanto, foi beneficiada pela ausência do coice, porque permaneceu elegível e manteve os benefícios decorrentes desta situação. Exatamente neste momento ruíram minhas esperanças sobre a lisura da Suprema Corte, porque a aberração favorável a mulher que ensacava vento foi declaradamente política, e não jurídica. Minhas expectativas, infelizmente, foram corretas, e durante os últimos anos o que mais assistimos foi isso: julgamentos de ocasião. O principal deles, habilitando Lula depois de condenações em duas instâncias e sua consequente permanência na prisão. A credibilidade do STF ruiu e hoje o ditador calvo se intromete em qualquer assunto que seja provocado, impondo sua própria vontade, não uma decisão judicial. Nem final de feira exibe um cenário tão pobre como esse, e portanto, o “perdeu Mané” não foi um singelo repúdio, mais um coice que agora se dá contra os brasileiros.