Brigar contra algumas ciências é sempre muito difícil, e a matemática é uma delas. Por isso será interessante acompanhar este impasse entre o possível e o improvável nos próximos dias, quando a equipe de transição do novo governo tentará encontrar nada menos que 100 ou 120 bilhões no orçamento do governo federal para 2023. Tudo para “honrar um contrato estabelecido nas urnas”, segundo a deputada Gleisi Hoffman, qual seja, a continuidade do Auxílio Brasil de R$ 600 partir de janeiro e o pagamento de outras promessas, como os R$ 150 para crianças com até 6 anos de idade e o aumento da faixa de isenção para os contribuintes do Imposto de Renda, além de um aumento para o salário-mínimo.
Como agora as tintas com as quais são escritas as matérias são menos carregadas, atende-se como “PEC da Transição”, conhecida também como PEC da Picanha – e não Kamikaze – a forma com a qual o novo governo pretende receber esta pequena fortuna dentro da lei. Porém, um economista que provavelmente não havia combinado suas respostas, e assim constrangeu seus questionadores no Jornal das 10, da Globo News, apresentou observações interessantes no final de semana. Segundo ele, é insustentável essa “pressa” porque, em primeiro lugar, não á espaço financeiro para isso.
Depois, porque este “buraco” terá de ser tapado de alguma maneira, amanhã ou depois, com estratégias conhecidas como aumento da carga tributária. Finalmente, do ponto de vista político, o novo governo, que ainda nem possui legitimidade para oferecer cargos, somente promessas, seria pressionado antes de tempo a fazer concessões inclusive no orçamento secreto. Segundo ele, propor este aumento gigantesco de gastos poderia ser adiado e melhor sustentado no próximo ano, através de medida provisória, e não através da aprovação de uma emenda constitucional, sempre mais difícil – e cara – de ser aprovada. O curioso é que, no final da tarde de sexta-feira, talvez refletindo sobre esta entrevista, o próprio senador Renan Calheiros, muito alinhado com o presidente eleito, fez a mesma observação.
Ora, os fatos estão sobre a mesa: se o próprio Lula insistia que o presidente Jair Bolsonaro não havia previsto esta despesa no orçamento deste ano, teria neste momento argumentos de sobre para fazer o que fosse possível, e não o que “prometeu”. Mas não. Ele insistirá neste rombo, que inclui a diminuição de receitas com o IR, aumento de cento e cinquenta “pratas” para as crianças e ainda ganho real para o “mínimo”. Assim qualquer candidato consegue, não é mesmo? O sujeito sonha, acorda e pede pra esposa ir a esquina e comprar uma Porsche. Ela fala: com que dinheiro? Ela vira pro o outro lado e diz: pede para alguém conseguir…