A cobertura da mídia tradicional sobre os protestos e paralisações de caminhoneiros foi, como se esperava, tímida e pontual, tratada essencialmente como um movimento “golpista”. Tecnicamente, não há como negar, de fato. Pedir a intervenção das Forças Armadas um dia depois das eleições não faz o menor sentido, e não seria assim que o Brasil apresentaria a saudável e esperada alternância do poder do ponto de vista democrático. Parar o país forçosamente, interrompendo cadeias produtivas e desabastecendo a população é algo que, a depender da duração, conspira contra as ideias de seus organizadores. Entretanto, retirados os excessos da “causa”, ficam recados interessantes. Durante boa parte do dia, ontem, centenas de limeirenses se acotovelaram às margens da rodovia Anhanguera, um dos principais pontos da concentração.
Os manifestantes, para que se tenha uma ideia, estacionaram seus carros das imediações do “Sesão” até a pista, e até a chegada da Tropa de Choque, mais no final da tarde, ficaram o tempo todo postando registros nas redes sociais. Muitos deles, inclusive, levaram água e mantimentos em um gesto de solidariedade com os caminhoneiros, que ainda mandam seus recados em pelo menos 11 estados brasileiros. A grande imprensa também não cobriu as manifestações feitas nas imediações de quarteis, talvez a maior delas no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias.
Ou em Brasília, que acertadamente fez um cinturão em torno da praça dos Três Poderes para que se evitasse um “capitólio”, mas que importância pode se dar a um movimento que pede intervenção? Neste sentido, nenhuma, mas aos mais novos, vale lembrar que as movimentações populares sempre foram uma especialidade do PT. Nascido no sindicalismo, seus apoiadores expandiram suas manifestações das portas das fábricas ao entorno de escolas, prefeituras e propriedades rurais. Seus carros de som também conclamaram manifestantes e fizeram algumas arruaças Brasil afora, e só desapareceram temporariamente porque os sindicatos se enfraqueceram e os movimentos sociais perderam a irrigação financeira pública.
A bem da verdade, não faziam pedidos de intervenção, mas centenas de vezes “incendiavam” o país pela maneira agressiva com a qual apresentavam suas demandas. Portanto, minimamente, este “choro dos derrotados” ou “movimentos golpistas”, seja qual for a definição, informa ao presidente eleito que, pela primeira vez, ele enfrentará uma forte oposição, dentro e fora de Brasília. E à Suprema Corte que, por sua militância inédita, deixou milhões de brasileiros bastante irritados. De recados também se vive.