Há mais de quarenta anos tive uma discussão filosófica com um antigo amigo de meu saudoso pai, um representante comercial que trabalhava nos Estados Unidos. Fiz a besteira de dizer que não gostava dos norte-americanos, e dai por diante conheci um pouco melhor a história daquele país, lamentando ter perdido, ao longo dos anos, um livro que ganhei a seguir, narrando esta trajetória.
É que, quem nasceu no começo da década de 1960, como é o meu caso, conviveu não apenas com o período da ditadura militar com os ares da chamada Guerra Fria. Portanto, um período no qual as discussões sobre o “imperialismo” eram acaloradas, só admitidas por nações neutras como o Brasil dentro do estranho conceito de “dominação democrática”. Ou seja, em uma época em que os misseis soviéticos foram instalados em Cuba, calibrados para destruírem Miami ou Washington, a critério de Moscou, rechaçar o comunismo era uma “obrigação”. Afinal, eles, os “imperialistas ianques” abasteceram as ditaduras sul-americanas exatamente para que não caíssem em mãos inimigas. E a imagem da União Soviética, cá entre nós, era terrivelmente pintada. Primeiro, porque os comunistas comiam criancinhas, assadas ou grelhadas, à critério do contador da história.
Depois porque ninguém possuía o direito à propriedade privada: casas com 3 quartos, comuns à época, teriam que ser divididas entre duas ou três famílias em caso de “invasão”. Finalmente, porque até para conseguir um mísero rolo de papel higiênico, as pessoas tinham que se submeter a filas imensas. Quem gostava de um cenário desse? Confesso que muitas noites tive dificuldade para dormir com a possibilidade de uma guerra nuclear, até que descobri que o dinheiro seria o maior agente pacificador quando este ponto chegasse.
No início da década de 1990, o ex-presidente Mikhail Gorbatchov só tornou isso mais claro quando fragmentou o império soviético a uma dúzia de nações independentes. A Rússia, apenas a maior entre elas. A guerra que envolve a Ucrânia, agora, releva ao mundo que o imperialismo tão combatido no passado tinha, da verdade, outro endereço: Moscou.
Porque o que Vladimir Putin deixou claro desde o começo é o desejo de pessoas como ele em voltar no tempo, trazendo ao berço da importância a velha “mamãe”. Putin parece ter encontrado um Vietnã para chamar de seu e sucessivos revezes o tem feito apelar, incluindo agora ameaças nucleares. Volto aos tempos de adolescente para mais uma vez me acalmar: o dinheiro é o maior diplomata em todos os conflitos, até que seja colocado na mesa. Bem que o Ziraldo poderia enviar aquela panela do Menino Maluquinho para ele antes que isso aconteça.