O retorno de Jorge de Freitas à Câmara Municipal, agora não para depor, mas para continuar seu mandato, sugere algumas pistas. A mais elementar, retirado do “olho do furacão” no escândalo do IPTU, até prova em contrário ele permanecerá longe dos acidentes de percurso que possam ocorrer durante as investigações da CPI. E, como efeito derivado, terá acesso mais rápido ao material investigado, queira para se resguardar de investidas interesseiras, queira para defender a administração à qual era subordinado até ontem. Mas existem outros pontos em consideração.

Jorge não é “apenas” um vereador alinhado com Edifício Prada, mas ele exerceu um papel central na primeira eleição de Mário Botion coordenando as conhecidas “células” para a apresentação de seu candidato. Seu trabalho de “formiguinha”, feito de porta a porta, conseguiu levar o nome de Botion à redutos de menor penetração, uma vez que seu eleitorado sempre se concentrou na região central da cidade. Dito isso, era de se esperar que não fosse jogado ao mar, e sem boias. Outra questão diz respeito ao próximo pleito. 2024, no calendário político, é logo ali, e para quem queira – ou possa – inscrever anotações em seu caderno de ambições, esta CPI é uma boa oportunidade. Porque, se a investigação causar arranhões à imagem do prefeito, o mesmo se aplicará a sua esposa, candidata a deputada estadual. Definitivamente, a menos de dois meses do pleito, isso seria indesejável.

O que se tem até agora, porém, é uma farta documentação na mesa dos vereadores e apenas o início de uma fase de depoimentos que só aumentará estas pilhas. Preliminarmente, tudo indica que o esquema fraudulento é antigo, e as investigações devem apontar suas ramificações, mas o mais perigoso até agora é uma pretendida – por muitas razões – antecipação de beneficiados, principalmente atingindo aqueles “de boa fé”. É a típica situação de constrangimento ilegal, que pode macular reputação de empresas e pessoas, e não deve, em qualquer hipótese, se colocar adiante do trabalho dos vereadores.

As CPIs, em regra, oferecem muita visibilidade aos seus coordenadores, que as vezes se valem desta posição para alcançar notoriedade passageira, mas há de se ter bom senso, critérios e sensatez. A tentativa de destruição de imagens ou candidaturas não deve servir de pretexto para isso. Aliás, vale lembrar, foi a própria prefeitura que solicitou as investigações às autoridades competentes. Portanto, é legítima interessada, mais que os próprios vereadores, na apuração dos fatos.