O escritor Augusto Cury costumava repetir, em suas obras, que o ser humano é tremendamente… psicoadaptável. Da mesma forma, testo corriqueiramente não somente os nuances desta adaptação, as vezes voluntaria, as vezes imposta, concluindo que ela é mais ampla. A pandemia, por exemplo, nos colocou diante de um ambiente doméstico o qual conhecíamos mais nos almoços e finais de semana. Descobrimos que as casas possuem armários, que as roupas não acomodam sozinhas e que operar máquinas de lavar não é tão chato ou difícil assim. E eis que, de tempos em tempos, novas pesquisas refletem como surgiram novos hábitos e agora uma delas, feitas pelo Instituto Kantar, identificou que nada menos que 62% dos brasileiros ainda estão preocupados com a pandemia e seus impactos em suas vidas profissional e financeira. Amentou, também, o número de brasileiros que só compram produtos em promoção – estou entre estes – e a fatia de pessoas com algum grau de insegurança alimentar.

A inflação também interferiu nos hábitos alimentares e detecta-se que agora, não apenas 25% dos entrevistados abandonaram as refeições fora de casa como aumentou o consumo de lanches e caiu o consumo de refeições completas. Os motivos são fáceis de compreender: em média, salgadinhos e lanches populares custam entre 8 e 12 Reais; as refeições completas, em restaurantes, não saem por menos de 40.

O estudo da Kantar também mediu esta variação de preços: no primeiro grupo, no qual estão as preferências dos brasileiros como pastéis, hambúrgueres, salgados e cachorros-quentes, a alta foi de 11%; no segundo, de 22%. Qual o problema?

Quando os hábitos alimentares são modificados porque se apresentam inadequados, ricos em gorduras e açucares e comprovadamente isso traz riscos à saúde, é algo a se festejar. Um franguinho grelhado servido com arroz, feijão e salada produz um tipo de efeito no organismo, enquanto uma fatia de empadinha de caçarola, outro.

Mas a questão não é só essa: se as pessoas, em certa medida, “vivem do mesmo jeito”, essa troca acarretará efeitos na saúde e na longevidade. Saborear uma coxinha bem-feita, com massa de batata, pouco trigo e de preferência sem requeijão no recheio é prazeroso, mas deve ficar restrita aos domingos, nas feiras-livres. Infelizmente, uma readaptação que somente será possível quando as refeições por quilo custarem menos de 60 Reais, o que vai demorar.