Uma grande amiga de minha família, psicóloga por formação, muita embora não seja o melhor exemplo de identificação cristã, saiu com essa, uma vez: “Deus fez tudo certo, mas poderia ter caprichado um pouco mais na velhice”. Até hoje não sei direito se lhe dou plena razão, mas não deixa de ser ao menos reflexivo seu comentário, a começar porque, em certa medida, envelhecer é algo que buscamos. Ainda mais hoje em dia, quando postergar a existência é, segundo a ciência, algo possível e, digamos, alcançável sem grandes esforços. Inicialmente porque existem inúmeras comprovações que sugerem determinados hábitos, principalmente ligados à alimentação e ao abandono do sedentarismo, como fundamentais para um envelhecimento mais digno. E dignidade, me parece, ser algo primário nesta escala de valores, porque diversas limitações impostas pelo tempo podem ser lentas, mas são progressivas. E, quando somos vítimas delas, ou pior, quando estas limitações nos afastam de uma vida basicamente normal, como caminhar ou ouvir, por exemplo, isso incomoda profundamente. Mas existem outras questões relacionadas a arte de envelhecer, e agora boas: quanto mais vivemos, mais semeamos nos corações de quem nos quer bem. Porque está exatamente neste envolvimento duradouro a sobreposição de laços ainda mais afetivos, porque cuidar é amar. E, é engraçado, até nestes novos vínculos, que agregam este novo estilo de vida, todos se surpreendem porque as pequenas adaptações, quando observadas com um relativo bom-humor, impõem prazerosos desafios. Mamãe teria completado ontem 92 anos, e não me lembro que tenha desperdiçado um dia de sua vida com pensamentos negativos. Ao contrário, ela mesmo, impulsionada por seu desejo de viver, abria novos ciclos, sem perder a esperança ou uma forma alegre de enxergar seu mundo e seus filhos. Ao seu modo, do seu jeito, foram muitas idas e vidas em sua longa jornada absolutamente inspiradora. Do seu olhar às frases de efeito; de suas observações a um simples brinde, tudo foi especial. E assim, quando nos restam apenas as lembranças, revisitá-las, ainda que a saudade incomode, nos impõe quase um compromisso de saber que um adeus é, intimamente, um até breve, porque não apaga uma história construída por aquilo que realmente nos define: o que podemos oferecer de melhor. Que é, essencialmente, o amor.