Acredito que o que dê longevidade aos “realities” esteja na persistente curiosidade humana. Parte esmagadora da população, vê no confronto de ideias é uma espécie de “seguro” de como se comportar ou não, e isso vale para comer, beber, viajar e até se vestir. Por isso não tenho nada contra a quem deseje permanecer assim, exceto aqueles que possuem dificuldade em assumir o controle de suas vidas, desinteressados com o que suas preferências possam fazer.
Gente que persegue os perfis da Juliete – triste, alegre, amorosa, ensonada, esportiva, cantora, sei mais o que – e sai pesquisando o preço de suas roupas para estar “na moda”. Porque talvez desconheçam, “estar na moda”, décadas atrás, era seguir um figurino pré-determinado, associado a regras de etiqueta que somente foram rompidas pela audácia de pessoas incomuns. Enquanto a música reverbera isso com mais facilidade, a argumentação criativa em reuniões não corporativas possui uma enorme capacidade de nos fazer pensar. E, voltando no tempo, pessoas geniais como Danuza Leão deixaram suas marcas exatamente por isso, pois quebraram o silêncio da clausura social. Esse tom libertário, que debochava dos padrões e propunha igualdade e muita liberdade, se considerarmos dito há mais de cinquenta anos, era o que chamávamos de “feito”. Porque hoje em dia, o que mais se vê nas redes sociais são personagens mal construídas deste universo feminino, ao menos as que fazem mais sucesso. Ou somente ostentam sua fama e suas conquistas patrimoniais, ou simplesmente fazem da vulgaridade uma maneira de expressão.
Danuza foi modelo em uma época na qual o ofício era sério; foi amiga de grandes nomes da cultura debaixo de um regime militar; casou-se e separou-se várias vezes, sempre com personagens ilustres e, perto de fazer 60 anos, ainda teve tempo de escrever um best-seller com uma máquina de escrever emprestada. Com bom-humor, tratou de etiqueta com irreverência, ensinando entre outras coisas: “”Não chegue muito perto nem toque seu interlocutor. Guarde a distância regulamentar de 50 centímetros. A não ser, claro, que já estejam a caminho do motel.” A ela, e a todas as precursoras da voz feminina que se fez ouvir, em tempos muito estranhos, respeito eterno.