O desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips nas fronteiras amazônicas, que mobilizou boa parte da imprensa na última semana, trouxe a reboque uma enxurrada de críticas a gestão federal naquela região. Aliás, nos últimos meses, o número de estatísticas apresentado em relação às queimadas e desmatamentos na Amazônia foi impressionante, como também o “desmonte”, como preferem chamar alguns ambientalistas, dos órgãos de proteção e fiscalização do meio-ambiente. Em relação ao provável assassinato dos pesquisadores, o caso revela maior profundidade, porque não apenas estavam em uma região inóspita, mas por se aproximarem da divisa peruana, local onde a fiscalização policial ainda é mais precária e o número de criminosos é maior. Ou seja, o leque de problemas é imenso porque inclui comércio de madeira ilegal, grilagem, garimpo e tráfico de drogas. Bem, por mais experiência que tenham acumulado, presume-se que estivessem ameaçando vários grupos com interesses marginais, e deveriam contar com isso. O próprio indigenista, conhecedor das ameaças a esta população, certamente já havia rabiscado, em seus apontamentos, tudo o que se passava por ali. Outras considerações, porém, chamaram a atenção, uma delas ouvida no noticiário noturno da TV, de um comentarista: “nem o Brasil conhece direito aquela região, porque eles não solicitaram proteção?”. Vamos lá. Decifrar os interesses indígenas foi uma tarefa à qual se debruçou o residente Jair Bolsonaro. Ele sempre salientou o tamanho já demarcado destas terras no país, algo imenso, e se manifesta a favor da exploração agrícola, mineral e pecuária de outras áreas que aguardam demarcação. Antes de cravar se ele esta certo ou errado, a discussão é relevante. Porque uma das questões é conhecer a possibilidade de coexistência entre índios e não índios, vamos colocar assim – e coexistência em todos os aspectos, social e econômica. E outro ponto. Sozinhos, abandonados à autogestão, como estes povos controlam seu imenso território, com arcos e flechas? E como o governo deveria agir, colocar um contingente policial para afastar seus inimigos, só pela manutenção territorial “alheia”? Houve e há, não há dúvida, um confronto eleitoral nesta questão, no qual alguns culpados estão indevidamente no banco dos réus. É cômodo para os jornalistas que estão nas redações refrigeradas das regiões sudeste e centro-oeste apontarem seus dedos para um assunto complexo e jamais resolvido à contento. E cômodo também aos parlamentares que não conseguem encontrar mecanismos legislativos duradouros para a gestão amazônica, se solidarizarem com as famílias dos desaparecidos. A questão é outra: sabemos, afinal, o que fazer com índios em pleno século XXI?