No final da semana passada, uma reportagem exibida pela TV detalhou o cotidiano de uma médica ucraniana que colocou uma câmera em sua cabeça para gravar o que ela e sua equipe enfrentavam. Honestamente quando atingimos uma certa idade algumas cenas nos tocam com mais profundidade, e foi exatamente o que aconteceu. A recepção dos feridos de guerra exibia não apenas a dor dos feridos, mas a de profissionais da saúde intensamente empenhados em salvar vidas, tendo que tomar decisões a cada minuto. Porque, ao menos no tempo em que durou a reportagem, os casos eram totalmente diferentes, tragicamente incluindo crianças. E, colocando uma gota de lágrima nos olhos de protagonistas e expectadores, houve o registro de um óbito. A guerra entre Rússia e Ucrânia completará três meses nos próximos dias e está longe do fim. Vladimir Putin, inclusive, enviou ao parlamento um projeto de lei que permitindo o alistamento militar de estrangeiros para aumentar seu contingente no front, enquanto esmaga como formigas, civil que bravamente o enfrentam. O combate deixa sequelas, sem dúvidas, mas até agora o Ocidente não foi capaz de impor, como deveria, sanções ao antigo império soviético, que continua poderoso e resiliente. Gás, petróleo, trigo, adubos, enfim, todas as moedas de troca parecem ter sido usadas sem que o Kremlin demonstrasse qualquer abatimento, econômico inclusive. A rede McDonald, inclusive, já arrumou comprador para centenas de seus restaurantes, um russo milionário, que em breve apenas colocará um sufixo nos letreiros para continuar vendendo lanches e batatas fritas. Enquanto isso, aquela médica seguirá sua rotina diária, fazendo cirurgias e emergências, suturas e tendo a dolorosa missão de informar uma morte a familiares da vítima. A coragem do povo ucraniano parece não ter precedentes na história atual, mas a luta é inglória e com final determinado, o que nos leva a pensar se o presidente ucraniano, de verdade, deseja essa macabra contabilidade para exibi-la ao mundo. A diplomacia segue longe do campo de batalha, milhões de ucranianos já abandonarem seu país e o espólio de um país invadido injustamente segue em ruínas, à espera de uma solução que dificilmente será interessante para o lado mais fraco. Cruel este mundo, impiedoso e letal para os mais fracos, em todos os sentidos, em qualquer canto.