O tensionamento entre o Palácio do Planalto e o STF, que se acentua a cada dia, lembra os avisos da inteligência norte-americana quanto às movimentações das tropas russas antes do conflito com a Ucrânia. Ou seja, uma hora haveria uma invasão, diziam. No caso de nossos poderes, já houve, e verdade seja dita: embora as provocações possam justificar algum tipo de reação, não há registro histórico de tamanho ativismo do Supremo. A impressão é que, enfrentados também como em nenhum outro momento, os ministros atuam de forma impositiva para se recolocarem não apenas como guardiões da constituição, mas como uma espécie de “poder moderador”, extinto do Brasil desde o período pós-colonização. Por conta desta novidade institucional, a imprensa se farta em suas marchas e contramarchas e qualquer detalhe ganha uma relevância inesperada, como esteve ontem o tornozelo de Daniel Silveira. Em decisão claramente afrontosa, o parlamentar “agraciado” pelo presidente Jair Bolsonaro fez questão de se exibir, exatamente na sede do parlamento, livre do monitoramento eletrônico. E em torno desta nova celebridade política gravita uma nova polêmica: ele terá condições de se candidatar nas próximas eleições? Observo, entretanto, que esta discussão é ridícula. Primeiro porque Silveira estaria melhor colocado como segurança particular ou leão de chácara, esses que expulsam bêbados das casas de tolerância. Sua contribuição ao parlamento nacional é totalmente dispensável, semelhante a outras dezenas de deputados que se elegeram na carona de nomes mais conhecidos, e todo esse furor serve apenas para colocar-lhe em uma prateleira a qual ele não pertence. Como frequentou, meses atrás, Fabrício Queiroz, pivô do escândalo das rachadinhas na assembleia carioca. Alguém tem ideia, passado todo este tempo, a quantas anda este personagem? Portanto, estes alvos temporários da chamada grande mídia são como borbulhas de espumantes: em minutos evaporam das taças. E exatamente por produzir estas “pelagens”, como se referem a elas os especialistas, sobrevive o movimento bolsonarista. Este enfrentamento sistemático proposto aos desafetos públicos e particulares compõe um método de exposição, e quanto mais são ouvidos, mais se abastecem. Os ministros do Supremo, se falassem menos, agiriam com mais inteligência e, como legítimos atores do ordenamento jurídico, seguiriam, à propósito, as recomendações dos cargos que ocupam. Essa ousadia de buscar limites cada vez mais extremos, tanto de um lado como de outro, no fundo está apenas beneficiando um deles. Aquele que já os perdeu faz tempo.