Ainda não está valendo, para valer, a determinação que obriga diversas empresas a se identificarem quando fazem suas conhecidas chamadas inoportunas. Por enquanto, apenas as ligações feitas por celular devem informar o número 0303; a partir de junho, a regra terá caráter geral. A medida, estabelecida pela Anatel, aparentemente pretende oferecer aos consumidores a oportunidade de se livrarem deste incômodo cada vez frequente em nosso dia a dia, e há dúvidas se alguma contribuição acontecerá. O assunto merece uma análise mais aprofundada, a começar de sua origem, décadas atrás, e tem um nome: telemarketing. Quando os telefones fixos ainda eram relativamente comuns, este expediente reunia algumas dezenas de profissionais treinados para vender, com argumentações quase inesgotáveis. Alguns profissionais eram tão bons que nos faziam sentir encabulados se não os ouvissem até o fim, a ponto de desencorajar o fim da comunicação sem uma despedida formal. Isso era muito chato, mas acontecia apenas quando estávamos em casa, o que mudou profundamente. A popularização dos aparelhos celulares e o registro destes números em praticamente todos os cadastros que fazemos, desde um financiamento até uma compra pela internet, tornou os seus detentores marcados para a eternidade. Para piorar, a tecnologia que retirou pessoas das antigas bancadas de televendas introduziu os recursos da inteligência artificial. Ou seja, atualmente, as empresas sequer têm o trabalho de orientar seus funcionários. Basta que as máquinas vasculhem seus arquivos e adotem procedimentos padronizados para nos importunarem permanentemente. Há distinções, é claro, mas todas estão ficando insuportáveis. Um boleto atrasado, por exemplo, faz com que seu emissor ligue pelo menos cinco vezes ao dia para lembrar o devedor. A cada dia que passa, no entanto, estas ligações aumentam, estejam ou não identificadas com o 0303. Existem modelos que avisam sobre estes números, mas na semana passada, ao atender uma destas ligações, fiquei surpreso. A “máquina” entrou em contato comigo para saber se havia recebido a fatura de uma operadora de TV a cabo, e isso faltando dois dias para o vencimento da mesma. No dia anterior, esta mesma companhia me importunou o dia inteiro para propor um desconto de R$ 10 para colocar a fatura em débito automático. Como descobri? Depois de seis ligações, resolvi atender. Modestamente creio que esta invasão de privacidade requer mecanismos mais rigorosos de punição por parte dos órgãos fiscalizadores. E à partir do contrário: quando nós é que precisamos falar, é intolerável aguardarmos 10 minutos, em média, respondendo questionários intermináveis enquanto não chegamos a uma pessoa – as vezes não conseguimos nem isso. A defesa dos interesses do consumir deve ser permanente, especialmente contra as máquinas, programadas por pessoas, vale lembrar.