Duas vezes por semana, em média, frequento um pequeno açougue instalado nas imediações da avenida Maria Buzollin. Minha saudosa mãe era cliente deste estabelecimento e não à toa: seu proprietário é muito cordial, fala o necessário e, no meu caso, gosta de falar sobre futebol. Corintiano, é daqueles que torce para os times que enfrentam os clubes rivais e ainda ontem, discutindo a fase de quartas de final do campeonato paulista, disse que esperava por um tropeço do Palmeiras, argumentando o seguinte: “Não é possível que tudo dê certo para aquele português (o técnico do Palmeiras), uma hora ele vai perder”. De fato, a passagem de Abel Ferreira pelo Palestra Itália é extraordinária, à pronto de torná-lo uma espécie de “celebridade”. No início da semana, para comprovar este fato, ele foi o entrevistado do programa Roda Viva da TV Cultura, algo incomum, se bem que sua orientação editorial deve ter sido alterada.

Duas semanas atrás, a jornalista Glória Maria esteve no centro do estúdio, mas isso não vem ao caso. Abel está, de fato, no centro das atenções quando o assunto é futebol, e isso também é frequente na política. De vez em quando aparecem as bolas da vez, para o bem ou para o mal, e à exemplo do esporte, as fases não são eternas. Alguns despencam do céu e outros submergem dos pântanos e ainda ontem, o noticiário apresentou um trecho de uma entrevista concedida pelo ex-presidente Lula. Não prestava muita atenção, porque ele é repetitivo, mas algo me soou interessante quando o petista revelou que enfrentar o presidente Jair Bolsonaro facilitava a sua candidatura: “Nós temos que tirá-lo de lá, os brasileiros sabem que devem fazer isso”. Lula, que desta vez não tem nada de paz e amor”, ao contrário, a cada dia exibe um grau de rancor e verborragia comparável aos seus tempos de sindicalista, vive uma fase parecida a Abel Ferreira, só colecionando vitórias. A mais recente, o reconhecimento de um pedido de indenização contra Danton Dalagnol, por tê-lo exibido como chefe do esquema criminoso na Lava Jato naquele famoso “powerpoint”. Some-se a isso sua consolidação à frente as pesquisas eleitorais e os holofotes que iluminarão, hoje, a filiação do ex-governador Geraldo Alckmin a PSB, seu provável vice.

Não está fácil para os seus adversários a ponto de muitos suporem que, se ele permanecesse recluso até as eleições, sem falar nada, provavelmente venceria já no primeiro turno. Mas isso será um desafio: mantê-lo sereno. Lula fala com ódio, com a soberba de quem se considera eleito e já indica ministros, algo que não interfere em seu eleitorado cativo, mas pode provocar algumas reflexões em parte da classe média. Especialmente quando serão comparadas suas conquistas contra um turbilhão de “malfeitos” assinados pelo partido que lidera. É o que veremos desde já, e sua capacidade de aumentar o efeito teflon de sua frigideira.