21/01/2022

Exceto, talvez, por motivações religiosas, dificilmente o estilo de vida de uma pessoa é suficientemente forte para nos inspirar por muito tempo. Na maioria das vezes nos apropriamos de alguns traços de personalidade e, é só, normalmente quando se encaixam em alguma necessidade imediata. Pois a morte de Elza Soares abriu essa oportunidade pela união de algumas destas circunstâncias, permissíveis apenas para quem fincou pegadas mais profundas nas areias existenciais. Inicialmente porque ela teve a rara oportunidade de “cantar até o fim”, algo que ela teve a chance de reivindicar em suas canções. Porque não foi mera coincidência, na semana de seu desaparecimento, ela ter encerrado um ciclo de dois dias de gravações no Teatro Municipal para a composição de um DVD. Músicos que participaram deste projeto, ouvidos ainda ontem, registraram emocionados estes últimos momentos, destacando que, mesmo com as limitações justificáveis por seus 91 anos de idade, sua disposição para atender a todos os requisitos do roteiro foi impressionante. Mesmo debilitada fisicamente, ela concluiu com maestria esta obra que em breve aliviará a saudade de seus fãs, incluindo um novo álbum de cações inéditas que ela acabara de gravar. Se isso não é ir “até o fim”, não sei o que seria, o que nos submete à primeira reflexão: não desistir. Outro ponto interessante de sua trajetória esteve ao seu lado desde o início, quando relevou a Ary Barroso, durante um programa de auditório, de que mundo ela vinha, respondendo à pergunta do apresentador. Ainda desconsolada pela precoce perda de um filho, por este motivo, simplesmente disse que era do “planeta da fome”, algo que, quase 70 anos depois de ser registrado, continua. Isso impôs a ela, como impõe a milhões de brasileiros até hoje, a necessidade de sobreviver, o que implica uma boa alimentação, cada vez mais distante da maioria. Finalmente, para concluir este pequeno resumo, Elza Soares resistiu, a longo da vida, à diversas manifestações preconceituosas, superando estes obstáculos com personalidade e força. Passou por um calendário sombrio no qual essas questões eram pouco debatidas, ou defendidas, e se isso também não possui o condão de inspirar, desconheço algo mais profundo. A cantora do milênio, portanto, fez mais do que dela se esperava, não se importando em olhar para trás, jamais. Elza era vaidosa, sim, mas também ousada, atrevida, inquieta e talentosa, e foi “até o fim”, um puxão de orelhas a quem pensa em desistir de seus sonhos, de sua responsabilidade diária de produzir e manter-se com sua própria inspiração de viver.