13 Janeiro 2022
Enquanto os números desta nova onda de contaminações aumentam espantosamente, impondo novos riscos como, revelado ontem, a falta de profissionais da saúde em postos de trabalho, os últimos setores a regressarem a uma cerca normalidade retomam seus pesadelos particulares. O governador João Doria, por exemplo, sinalizou ainda ontem que as prefeituras devem adotar medidas mais restritivas de acordo com suas realidades, impondo à reboque a limitação de 70% de ocupação nos chamados eventos de grandes concentrações públicas, inclusive em partidas de futebol. Surpreendentemente, porém, a Anvisa foi além, sugerindo agora que a temporada de cruzeiros 2021/2022 seja suspensa imediatamente, algo que merece um olhar mais atento. É claro que, perto da gravidade a que estamos submetidos, a preocupação com turistas em navios luxuosos parece uma bobagem, mas observemos os desafios que esta nova onda impõe. Quando o governo carioca suspendeu os blocos de rua durante o carnaval, o fez alegando que as medidas de controle de acesso eram praticamente impossíveis, o que não aconteceria na Marques de Sapucaí. Temos então esta primeira premissa, seguida logo depois por outros governadores: controlar ambientes somente para testados ou vacinados seria uma forma de permitir maiores aglomerações. O problema é que existem ambientes externos e internos, nos quais os riscos de contaminação são diferentes. Nos navios, embora existam dois ou três decks quase totalmente à céu aberto em cada modelo de embarcação, a circulação para refeitórios e quartos acontece exclusivamente por corredores climatizados. Exceto se os sistemas de ventilação tenham sido adaptados com sistemas de higienização capazes de exterminar vírus, algo que não se tem notícia, os navios continuarão, sim, sendo locais e altíssimo risco de contaminação. E, pior ainda, é que as pessoas mais expostas à contaminação continuam sendo os profissionais que operam a embarcação, dos camareiros ao comandante. Porém, sejamos honestos: trata-se de uma atividade privada, com protocolos perfeitamente adotados e, em escala produtiva, não se difere muito de centenas de indústrias que não pararam um dia sequer mesmo no auge da pandemia. Nestas, funcionários se obrigaram a trabalhar para não perdem seus empregos; nos navios, as avaliações de risco são particulares, e os turistas pagam para isso. Tive oportunidade de fazer alguns cruzeiros, são experiências interessantes, mas jamais me arriscaria a retornar aos navios nem este ano, nem nos próximos, pelos riscos e pelos inconvenientes causados pelas restrições sanitárias em vigor. Não está na hora de deixar algumas decisões para as pessoas? Suspender temporadas turísticas nesta altura do campeonato é uma medida extrema, desnecessária e excessivamente autoritária.