28/12/2021
Lamentavelmente, na saúde pública, o Brasil não terá motivos para se lembrar – ou algo de bom para exibir – de 2021. Além dos números devastadores da pandemia, que atingiu seu pico no segundo trimestre, o ano termina entre mais uma polêmica desnecessária e um fato gravíssimo: o Programa Nacional de Imunizações, em atividade há quase 50 anos, está sem coordenação formal desde julho, quando Franciele Fontana abandonou o cargo. Quanto à polêmica, seguem os embates sobre a vacinação de crianças entre 5 a 11 anos, aquecidos por mais uma “contribuição” feita diretamente pelo presidente da República, tornando pública sua intenção de não autorizar a vacinação na própria filha. Até ontem, nada menos que 17 estados informaram que não somente estão prontos para a vacinação desta faixa etária como não exigirão, como quer o Ministério da Saúde, atestado médico que recomende a imunização. Quanto ao PNI, o alcance do desastre é maior, não apenas pela ausência de uma coordenação formal. Isso se dá porque uma política de Estado se transformou em política de governo, neste caso, declaradamente contrário à vacinação. Os números demonstram a ausência progressiva dos brasileiros nos postos de vacinação, uma tradição em nosso país: em 2015 a média da cobertura vacinal no Brasil era de 97%; em 2020, o número foi de 75%. O encolhimento não se deve exatamente por um período de isolamento social deste o início da Covid-19 – o que ajuda a explicar –, mas pelo alcance do negacionismo do governo federal que, sob o pretexto de preservar as garantias individuais, coloca em dúvida a eficácia das vacinas de um modo geral. E observem a que ponto chegam essas inquietações. Quando, em janeiro deste ano, o Palácio do Planalto informou que se submeteria à aprovação da Anvisa para comprar vacinas contra a Covid-19 – assim atrasando sua obrigação –, agora, que possui este “ok” para as vacinas infantis, age diferente, promovendo uma suspeitíssima consulta pública para referendar sua decisão. Mas a gravidade do encolhimento do PNI não se esgota apenas por este aspecto, porque pode contribuir para a volta de doenças praticamente erradicadas caso as campanhas não retornem ao dia a dia da população. Somente para efeitos numéricos, sem contar os imunizantes contra a Covid-19, o Brasil distribui cerca de 300 milhões de vacinas todos os anos, e será difícil acreditar que essas doses cheguem cada vez menos aos braços de quem delas necessite.