22/12/2021
Durante décadas de ofício, poucos assuntos deixam de ser abordados por um articulista especialmente se ele, em questão, não se abriga em uma especialidade qualquer. Observar o desenvolvimento comunitário, desmandos políticos, interferências econômicas, avanços e retrocessos sociais constituem, na maioria das vezes, os temas mais recorrentes e, confesso, quando o lugar-comum aparece, eis um problema. Escrever sobre Natal, por exemplo, é um desses casos e por isso sempre deixei para as propagandas a rotulagem necessária. Porque, por mais que sejam planejados, estes encontros nunca são os mesmos, e esta pandemia muito nos ensinou a respeito, como bem coloca nosso companheiro Claudio Bontorim em seu comentário de hoje. Porém, quando uma perda é contabilizada, preparar os corações por uma ausência que será bastante sentida se faz por etapas de construção, na qual ao mesmo tempo queremos afastar a ocasião enquanto ela se aproxima. Eu e meus irmãos estamos nos preparando para tal experiência, devido a perda, no meio do ano, de nossa inesquecível mãe. Depois de atravessarmos anos a fio tentando devolver, à ela, tanta gratidão e amor, neste Natal teríamos que nos contentar revivendo momentos absolutamente marcantes de uma trajetória incrível. Isso, por exemplo, é uma cruel derivação da proximidade: nos faz acumular não somente fotografias, mas centenas de brindes, beijos e abraços. Entretanto, percebam como a pandemia ainda interfere na sociedade. Depois que decidimos alterar o local de nosso encontro familiar para atender a um pedido do meu filho, entramos nesta semana voltados para a preparação da ceia, um momento muito especial e particularmente trabalhoso. Eis que, na segunda-feira, após passar por um atendimento de urgência, minha mulher deixou o hospital um pouco melhor, porém nos trouxe uma notícia inquietante: seu teste foi positivo para Covid-19, embora ela não tenha sido internada em função disso. Como consequência, nos voltamos imediatamente para as necessárias adaptações em casa, e ontem mesmo, eu, meu filho e minha norinha, fizemos testes também, todos negativos. Por obra e graça divina a Márcia se recupera bem, mas sua repentina enfermidade impôs a todos uma reconstrução inesperada, porém, agora feita lentamente porque sua recuperação passou a ser o presente mais desejado. Os corações de minha família, já apertados, ganharam um furo a mais no cinto que os envolvem, e fazer o que? O melhor que possamos construir, porém, juntos de uma forma diferente. São Tomé, para aqueles que o devotam, precisava ver para crer, e somente situações indesejadas como essa podem reforçar que o mais importante não é como passamos o Natal, mas com quem. Em lembranças, ao lado na mesa e ou à distância.