11/11/21

Sergio Moro, que deixou a magistratura em busca de novas emoções – e por enquanto as teve – filiou-se ontem ao Podemos, sacramentando de uma vez por toda a intenção de enveredar-se para a política. O ex-ministro da Justiça do atual governo, que abandonou o barco durante uma ousada manobra até certo ponto narcisista, não deixa claro, até agora, se todos os seus passos foram premeditados ou se caminha ao sabor dos ventos de sua popularidade, ainda alta. Porém, deixar sua atividade como juiz federal não foi surpreendente, o que determinou o início desta trajetória. Por interesses diversos, seus despachos e suas decisões à frente da Lava Jato se tornaram frequentes no noticiário, culminando com o pedido de prisão do ex-presidente Lula, fato que, em certo aspecto, pode ter surpreendido até colegas de ofício. Mas isso foi a cereja do bolo. Moro condenou e mandou para a prisão outros políticos de alto calibre, como ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, bem como mandatários de empresas milionárias que, em regra, não são atingidos por decisões semelhantes porque sempre estão – ou estavam – protegidos por estratégias desenvolvidas pelas melhores bancas de advogados. Portanto, a notoriedade alcançada pelo magistrado paranaense não o tornou insensível a este fato, o que explica sua desistência de uma função estável, vitalícia e bem remunerada. As fichas de seu destino estariam cunhadas, desde então, pelo natural reconhecimento da opinião pública, o que também determinaria seu afastamento do governo Bolsonaro. O que se veria mais tarde, o presidente não consegue dividir holofotes de quem não seja subserviente ao seu comando. Isso fica claramente demonstrado em suas “lives” semanais, povoada de servidores como se estivessem adestradas por seu treinador. Em seu pronunciamento inicial, no ato de filiação, Moro falou como político. Demonstrou que os treinamentos em oratória apresentam evolução, mas foi apenas o primeiro passo de uma longa caminhada, que incluirá momentos difíceis e constrangedores. Deixar-se fotografar ao lado de Murilo Felix, representante de uma família investigada e condenada pela prática de muitos crimes, obviamente não foi sua culpa. Sua popularidade foi grotescamente emprestada. Mas ele deverá ficar mais atento. Para quem prometeu um basta a tantas questões, ontem, incluindo à corrupção, seria recomendável conhecer melhor seus atuais correligionários, principalmente a situação de processual desses apoiadores. Do contrário será apenas mais, do mesmo.