Conhecida como “expressão de condição”,  ou conjunção e locução subordinativa condicional, que aprendemos lá no ensino fundamental e médio, o “se” é um quase lá. Ou uma forma de mostrar que ele atrapalha, quando fica só nele. Ou seja, só no “se”, para dizer que se eu tivesse desviado, não teria batido o carro. Acho que deu para entender. E relembrar as regrinhas explicadas à exaustão pelas nossas professoras de português.
E o “se” atrapalha tanto, que acaba se tornando uma condição de fracasso, principalmente quando ninguém quer enxerga-lo. E quem, com certeza, terá muito “se” a explicar daqui para frente é o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). E não por vontade própria, mas por uma enorme incompetência intelectual, para não dizer outra coisa, Bolsonaro está cada vez mais enrolado com o “se”, que não destrava o seu governo. E, daí para frente é só perceber como ele gosta de culpar os outros pelas suas falhas. Pela sua falta de ação, em promover o correto, em vez de ficar discutindo a Terra Plana com seu núcleo ideológico.
Um “se” que pode – e deve – custar caro a reeleição de Bolsonaro, cada dia mais isolado e apegado às suas convicções golpistas. Se – e agora aqui uma condição de sucesso – o presidente tivesse escutado a ciência e feito tudo o que deveria ter feito, a pandemia já estaria passando por um controle maior e, muito provável, a economia já estaria se recuperando. E ele navegando em águas calmas e surfando nas ondas do sucesso.
E são tantos os “ses”, que vou procurar, aqui, citar os mais perceptíveis, os “ses” a partir da conflagração da pandemia do coronavírus, e que vão interferir no seu sonho de reeleição. Isso “se” ele não cair antes… Improvável, mas não descartado.
E “se” tudo sair com o resultado esperado, eu concluo, porém com uma afirmação e não condição. Bolsonaro não será reeleito e pode até cair antes. Embora isso não interesse a ninguém, muito menos a Lula e o PT, que querem derrota-lo nas urnas.

Se Bolsonaro tivesse ouvido seu ministro da Saúde, o médico Luiz Henrique Mandetta, e acatado suas sugestões e a de seus diretores diretos, inclusive decretando o isolamento e o distanciamento social, incentivando o uso de máscaras e, se necessário o lockdown;
Se, por uma questão de vaidade, não tivesse trocado os dois primeiros ministros da Saúde – ambos médicos – por um general especialista em logística, que deixou faltar oxigênio em Manaus e não comprovou vacinas quando podia;
Se tivesse tomado as medidas que lhe cabia, em vez de ficar mentindo descaradamente que o STF o proibiu de agir. Mentira ainda dita como se fosse verdade por seus apoiadores;
Se ele tivesse, logo que surgiu, aderido ao Consórcio Covax Facility, comprando a quantidade de vacinas que lhe era permitido e não apenas uma porcentagem mínima;
Se ele tivesse comprado as vacinas nas primeiras ofertas da Pfizer, por exemplo, lá entre os meses de julho e agosto do ano passado;
Se não tivesse receitado – embora seja uma simples capitão-reformado e não médico – um coquetel comprovadamente ineficaz contra o coronavírus, fazendo da cloroquina sua bandeira de batalha;
Se tivesse coordenado nacionalmente o combate à pandemia. Ele tinha poder para isso;
Se tivesse respeitado os mortos por Covid-19 e suas famílias, antes de tripudiar sobre elas;
Se tivesse mostrado a empatia que o cargo lhe impõe, antes de fazer piadas sobre a doença e os óbitos registrados, imitando uma pessoa sentido falta de ar;
Se tivesse, nas primeiras oportunidades, homenageado os profissionais de saúde da linha de frente do combate ao coronavírus, visitando hospitais de campanha e centros especializados no combate à Covid;
Se tivesse tratado as vacinas com o devido cuidado e importância que elas exigiam – e ainda exigem – e sendo um exemplo, vacinando-se e mostrando ao público sua vacinação;
Se tivesse se preocupado apenas em governar o Brasil e não se utilizar do cargo para montar um palanque permanente para a reeleição;
Se tivesse entendido que é o presidente da República e não o deputado dorminhoco das sessões da Câmara Federal;
Se tivesse aprendido que ser presidente da República não é mandar em tudo, achar que todos lhe devem obediência e que o Brasil é uma República, com três poderes distintos e independentes entre si;
Se soubesse respeitar as opiniões contraditórias às suas e não atentar contra a democracia, em nome de uma liberdade de expressão que ele nem sabe o que é;
Se tivesse inteligência, competência e não apenas esperteza política, hoje ele seria facilmente reeleito ao cargo e a economia brasileira já estaria em franca ascensão.
O “se”, que Bolsonaro não quis enxergar, vai lhe fazer falta em outubro de 2022…

Aí, quem sabe, ele próprio não diga: “ah, se eu tivesse sido, de fato, um presidente da República…”

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil